Elas não conseguiam se lembrar de quando haviam chegado ali, nem exatamente como. Sabiam apenas que, em algum lugar distante de onde estavam agora, tinham sido uma só. Lembravam-se de quando um homem trabalhou suas formas e as dispôs de um jeito planejado sobre cascalhos, ressaltando formas arredondadas e sua tonalidade esverdeada. Mais do que nunca, tinham uma certeza: pertenciam uma à outra.
O tempo não significava muito para elas. Tinham séculos de existência. Mas, desde que haviam recebido aquela forma e sido colocadas naquele lugar, passaram a compreender um pouco melhor o que as pessoas queriam dizer quando falavam em “tempo”, pois agora tinham antes e depois.
No entanto, uma delas não parecia estar muito satisfeita ultimamente. Andava mal-humorada, impaciente. A outra começava a se incomodar com os suspiros exasperados e os silêncios carregados.
— O que há com você? Não entendo o que está acontecendo. Já lhe perguntei isso inúmeras vezes e nós nos conhecemos bem o suficiente para que você me explique.
Depois de um momento de silêncio, veio a resposta:
— Estou começando a me cansar de ficar aqui com você, nessa mesma posição.
— O quê? Você se apoia em mim, eu sustento você! E estamos tão bem e tão protegidas… somos aquecidas quando há sol e somos lavadas pela chuva. Além disso, temos uma bela vista da baía entre as árvores. Podemos até ouvir o barulho do mar…
— Sim, eu sei que você vê as coisas de outra maneira. Mas qual é o sentido de estarmos aqui? Além do mais, sinto saudade de como éramos antes de recebermos essa forma.
A outra ficou em silêncio. Ela também sentia saudade e já ouvira visitantes falarem sobre isso. Por outro lado, também percebia uma sensação de algo mais, algo essencial nessa forma atual.
A outra pedra não escondia sua insatisfação e continuou seu desabafo:
— Inclusive, estou começando a não gostar do que as pessoas dizem sobre nós… Sobre por que temos justamente essa forma e o que ela significa. Concluem coisas tão banais…
— Sim, nesse ponto eu concordo. De vez em quando é assim. Mas, fora isso, não é tão ruim… Você observa que a maioria presta muita atenção em nós e, quase sempre, começam a conversar sobre coisas que vão muito além da nossa forma e do lugar em que estamos? Frequentemente até fazem comparações com a vida delas!
A outra ficou em silêncio. Um longo silêncio. Depois, falou em tom muito baixo. Era quase um sussurro:
— Mas nada acontece. Pelo menos eu não percebo nenhum desenvolvimento nelas, nenhuma ação. E essas pessoas que nos visitam aqui precisam seguir em frente, não precisam?
— Bem, se você quer saber o que penso… Deve ter um motivo para nós e para elas estarmos aqui agora. Também acho que muita coisa continua acontecendo na mente destas pessoas, levam suas reflexões, mesmo muito tempo depois de irem embora. Em seus pensamentos e sonhos, acho que se perguntam sobre o porquê da própria forma, da própria função… talvez de seus propósitos.
— Mas o que elas ganham com isso? Isso as leva a algum lugar?
— Não sabemos. Mas estamos fazendo a nossa parte. Algo me diz que estamos aqui, dessa forma, porque o artista que nos criou quis expressar alguma coisa importante. E talvez isso chegue às pessoas de uma maneira muito diferente do que podemos imaginar.
Perto da escultura de granito, havia um casal que tinha atravessado um período longo e difícil devido à perda de pessoas queridas. As marcas do sofrimento podiam ser percebidas por sua maneira de caminhar e pelas linhas profundas nos seus rostos.
A mulher girava vagarosamente ao redor do conjunto de esculturas quando o homem lhe perguntou:
— Você acha essas pedras especiais?
— Sim. Expressam alguma coisa que não consigo nomear, mas que me atrai.
Ele questinou-a, quis entender melhor, e mesmo sem ter as respostas, a mulher tentou explicar-se.
Disse que a escultura de pedras sobre pedras a tocava em algum lugar profundo, e isso a intrigava… vinha da forma arredondada e da maneira como as pedras se apoiavam uma à outra… Havia algo ali que parecia querer se expandir, irradiar… e havia uma parte que acolhia e sustentava.
Ela tirou outra fotografia da escultura. A enésima.
O homem respondeu:
— Isso está lhe fazendo bem. É a primeira vez em muito tempo que vejo você sorrir.
— Sim, é verdade, isso me alegra. Mas por quê? – perguntou a si mesma.
Ela parou para refletir. Seu olhar perdeu-se na escultura por longos minutos. Em dado momento, sorriu abertamente, aliviada, feliz.
— Meu querido, já podemos continuar nossa caminhada pelo parque.
Ela tinha decifrado o enigma, e a solução era o alento de que ela precisava: a escultura no parque a fazia sentir a interdependência de tudo. Interdependência era apoio e o contrário também, sem qualquer espaço vazio.
