Terra úmida

Éramos caule, éramos folhas, éramos flores, éramos frutos, éramos Tudo. E, nesse Tudo, éramos também o Nada.

Terra úmida

Eu me sentia em plena terra úmida:

a própria lama.

Então, me descobri semente:

comecei a crescer.

Elevei-me para algo que não compreendia

e, quanto mais me elevava, 

mais sentia a necessidade de usar aquela terra úmida.

Era como se aquela lama me nutrisse e me fizesse crescer.

Comecei a tomar forma.

Era caule, era folha.

E, quanto mais me elevava, mais sentia a necessidade 

de usar aquela terra úmida.

Comecei a ter a sensação 

de que existiam outras como eu,

na mesma situação. 

Eu as via.

E nossas raízes, em meio àquela terra úmida, 

apoiavam-se umas nas outras: 

tão conectadas que nos percebíamos uma coisa só. 

Éramos caule, éramos folha, éramos flor.

E a terra úmida começou a perder seu aspecto de lama.

Florescíamos juntas: eu e as outras.

Nossas pétalas cobriam a terra úmida com suas cores

e com um perfume que transcendia qualquer compreensão,

reverberando por quilômetros, a milhas de nós.

Éramos árvores.

Ou, talvez, continuações umas das outras.

Éramos caule, éramos folhas, éramos flores, éramos frutos,

firmes, naquela terra úmida, que nos nutria 

de algo que nos elevava.

Nossos frutos doces nutriam as mais variadas espécies de seres 

que propagavam nossas sementes 

por mais milhas de distância: 

estávamos em toda parte.

Éramos caule, éramos folhas, éramos flores, éramos frutos: 

éramos Tudo. 

E, nesse Tudo, éramos também o Nada: 

nem semente, nem caule, nem folhas, nem flores, nem frutos.

Sem definição.

Por toda a parte.

Simplesmente éramos.

 

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Informação sobre o artigo

Data da publicação: março 16, 2022
Autor: Grupo de autores Logon

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