O Passado é uma Roupa que Não Serve Mais

Não há permanência, não há estabilidade. A nossa rigidez é despedaçada pela velocidade das transformações. Nós mesmos só estamos de passagem.

O Passado é uma Roupa que Não Serve Mais

Em um momento de silêncio em minha casa escuto um carro passando com um som alto. A música é familiar.

“Você não sente e nem vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança em breve vai acontecer. E o que há algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer.”

Esse trecho da canção Velha Roupa Colorida, escrita em 1976 pelo cantor e compositor brasileiro Belchior, é muito ressonante hoje em mim. O tempo pode ser tão relativo! E nesse mundo veloz em que vivemos, em que tudo muda rapidamente, a música me faz refletir sobre o tempo que desperdiçamos brigando uns com os outros.

Atacamos o outro por divergência de valores, defendemos acirradamente nossos próprios interesses. Se pensarmos que por aí se mata um semelhante por ter religião, orientação sexual ou cor da pele diferentes… Que loucura! E aí, de vez em quando, surgem palavras como as da música, que soam como gongos me mostrando a tolice de perdermos nosso tempo a discutir; nosso tão precioso tempo de vida…

Subjetivamente, a música fala que não há permanência, não há estabilidade. A nossa rigidez é despedaçada pela velocidade das transformações. Nós mesmos só estamos de passagem.

Se conseguirmos parar e olhar para dentro, podemos ver o quanto somos apegados, grudados, identificados às nossas opiniões, modos de fazer. E que vivemos do passado, identificados às memórias e orgulhosos delas. Na posse das nossas cristalizadas “experiências valiosas”, dizemos aos mais jovens: – Escute a voz da experiência!

Mas nós não percebemos que podemos nos apegar a uma pequena parte do espectro da nossa visão limitada e considerá-la como o todo, como verdade absoluta.

As nossas opiniões são fortalecidas nos grupos com que nos identificamos e são viciadas pelos algoritmos, moldando, assim, a nossa “visão correta” de mundo.

E em posse de todo nosso bravo ativismo, temos a mania de querer mostrar ao outro como estamos corretos. Na esperança de, quem sabe assim, conquistarmos mais um membro para o clube. Como se todos fossem obrigados a pensar da mesma maneira.

Se nos abrirmos para ouvir outras opiniões, outras formas de ver o mundo, com a compreensão de que, como humanos, somos imperfeitos, poderíamos nos aproximar do outro desprovido de concretos armados de ideologias e crenças, e com uma força nova, a força sutil e poderosa da compaixão. E nessas trocas poderíamos entender mais o outro e ampliar a nossa visão. Quem não se apega a opiniões está aberto a ampliar as suas perspectivas.

A verdade é muito ampla e talvez nenhum de nós consiga concebê-la de maneira completa. Por muito tempo, grande parte da humanidade compartilhou crenças que hoje em dia são motivo de vergonha. A escravidão é um desses marcantes exemplos. Muitos acreditavam que ela era justa, e até mesmo necessária para a economia mundial quando, na verdade, denuncia nossa flagrante e primitiva consciência egocêntrica, ou seja, com foco centrado em nós mesmos. Será que atualmente acreditamos em verdades que precisam ser abandonadas para criarmos um mundo mais justo?

É importante que duvidemos das nossas crenças. Apenas quando não estamos completamente apegados às nossas visões de mundo, podemos ter um vislumbre de outras possibilidades e, quem sabe, ampliar nossa compreensão.

Essa é a base de qualquer evolução. É como subir uma escada. Para chegar no topo, precisamos abandonar progressivamente os degraus que nos davam apoio e, à medida que galgamos novos degraus, temos uma visão mais ampla. A verdade única só pode acontecer se vier por meio de uma mudança fundamental em cada um, abandonando o egocentrismo para uma consciência universal que tudo une.

A saída pode estar na transformação interna. Escalar esta vida desviando de qualquer opinião empedrada, deixando as verdades rígidas rolarem abaixo, abrindo mão dos apegos que pesam na subida. E aos poucos, cansados, ir sentindo o ar puro, livre de disputa, acima de competições. Aos poucos, ir notando que já estamos trilhando um caminho de essência completamente diferente, que nossas roupas não nos servem mais. Nem nós mesmos reconhecemos quem éramos, nossa alma está renovada.

É um sonho? Não. Não podemos visualizar verdade alguma com as garras do apego, mas sim com a humildade de um errante, de um ser limitado. Essa é a alma de um jovem, não importa que idade tenha. Essa é a fluidez da percepção de um aprendiz que absorve tudo ao seu redor.

A verdadeira razão é a que abre mão de estar certo perante os outros. Uma convivência harmônica vale mais do que mil argumentos vencidos.

Nossa passagem por este mundo é breve. É tolice desperdiçar nosso tempo no embate. Nosso tempo é para descobrirmos um novo caminho para outro tipo de vida. Talvez assim pensasse Belchior. Lembro do trecho de outra música, Conheço Meu Lugar, em que ele expressa essa ideia:

“O que é que pode fazer o homem comum neste presente instante se não sangrar, tentar inaugurar a vida comovida, inteiramente livre e triunfante?”

É uma escolha entre viver apegado às nossas crenças antigas e solitárias ou aberto ao novo como uma criança.

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Informação sobre o artigo

Data da publicação: janeiro 18, 2023
Autor: Group of LOGON authors (Brazil)
Foto: Engin Akyurt (Pixabay)

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