Passamos a maior parte de nossas vidas em uma sala de espera. Não daquelas com filas de cadeiras e senhas numeradas. É uma sala comprida como um corredor, que se estende entre quem somos e quem esperamos ser.
É lá que vivemos e aguardamos.
Aguardamos por um momento melhor; pela oportunidade certa; por um amor que transforme nossas vidas, por um trabalho que tenha sentido… Esperamos cura, compreensão e perdão.
Aguardamos impulsos espirituais, inspiração e momentos em que a Luz nos toque.
Aguardamos por quem pensa e anseia pelo mesmo que nós.
Porém, quando finalmente chega o que esperávamos, descobrimos que nosso coração já olha para a próxima porta, cheio de expectativas… É que criamos muitas paisagens imaginárias para nosso futuro.
Também sofremos muito por causa da distância entre o que vemos e o que desejamos ver. Entre este momento e aquele que acreditamos que virá. Entre a história que contamos sobre nossa vida e a própria vida.
Estamos convencidos de que em algum lugar à nossa frente existe o momento em que a busca finalmente terminará e haverá harmonia total.
No entanto, com sua sabedoria, a vida nos deixa na sala de espera até começarmos a entender que, na verdade, não estamos esperando por um evento externo, mas pelo grande encontro com nós mesmos.
De repente, percebemos que a sala de espera não é um lugar de passagem. Não existe vida que comece depois. Não existe um momento futuro em que nos tornaremos completos.
Só existe este momento, esta respiração.
Nossas expectativas dão direção às nossas vidas, inspiram sonhos, criatividade e a coragem para transcender nossos próprios limites. O problema é que, em vez de percebermos a realidade diante de nós, nos concentramos no futuro que imaginamos.
Então, a sala de espera parece ser uma prisão.
Nossa espera parece interminável por desprezarmos que, quando o futuro chega, ele não é mais o futuro. O futuro jamais é vivido. Vivemos apenas agora.
Talvez seja por isso que os despertares mais profundos não acontecem quando nossos sonhos se realizam, mas quando não precisamos mais dos sonhos. É quando a pressa interior se cala. Quando passamos a ouvir o que está acontecendo hoje.
Aí, a sala de espera começa a desaparecer.
Vemos que suas paredes eram tecidas pelos pensamentos e as portas se dissiparam como névoa.
Vemos desaparecer todas as imagens que nós criamos a respeito da verdade, plenitude e transformação espiritual.
Vemos sumir a expectativa de que o mundo atenda aos nossos anseios…
Pois enquanto ficamos na sala à espera de chegar nossa vez na vida, não podemos vivê-la verdadeiramente.
Enquanto esperamos pela Luz, não percebemos que a Luz está e sempre esteve conosco.
Ouvir o que está acontecendo hoje é silenciar a vastidão de barulhos que nos atormentam.
Ao nos deparamos com a percepção de que desejos e imagens do futuro sempre surgem e desaparecem, talvez seja o momento em que o verdadeiro conhecimento começa.
É uma questão de transformação da percepção: não estávamos à espera do momento certo de chegar, mas nos defendendo de enxergar algo que sempre esteve presente.
Pois o medo mais profundo e resistente do ser humano é a transformação da sua percepção. A transformação do seu pensamento, pois uma nova forma de ver o mundo pode dissolver a imagem que construímos de nós mesmos. Com isso, pode desfazer cada certeza, desmontar cada história cuidadosamente construída.
É por isso que ficar à espera parece ser mais seguro.
Isso nos permite acreditar que a resposta está em algum lugar fora de nós.
Que ainda não precisamos questionar aquilo em que sempre acreditamos.
Porém, se surgir uma fissura por onde entre a luz, mesmo que não traga nenhuma informação nova, isso simplesmente transforma conhecimento em experiência direta.
Então descobrimos que a verdade estava tão perto que a mente não conseguia perceber.
O mais difícil de enxergar é o que sempre esteve presente.
Surge a compreensão de que não somos nós que estamos sentados na sala de espera.
O espaço onde a espera se manifesta é dentro de nós.
Com esse reconhecimento, a espera chega ao fim.
Descobrimos que só o que existe é este momento, e que ele assume incessantemente novas formas.
A sala de espera é construção da nossa mente.
Ao invés de uma sala de espera, existe a vida, fluindo sem interrupção, enquanto imaginamos um lugar de espera.
A espera deixa de ser vista como uma questão de tempo e torna-se uma questão de consciência.
Quando parei de perguntar pelo que esperava, o silêncio se instalou, e nele, pela primeira vez, eu realmente vi onde estava.
Não havia destino. Não havia futuro. Não havia sequer um caminho.
Apenas a vida.
Tão próxima.
Tão imediata.
Tão presente que, durante anos, eu a confundi com a espera.
