Arjuna, um ser humano em busca da verdade
O Bhagavad Gita é mais do que um mito ou o relato histórico de uma luta pelo poder em um reino indiano. É a conversa entre o deus Krishna e o príncipe Arjuna, que está às vésperas de uma grande batalha.
Foi traduzido para inúmeras línguas e comentado em diferentes culturas. É um dos textos espirituais mais difundidos do mundo.
Mas será que ainda há algo a descobrir nele?
Este artigo pretende lançar luz sobre uma questão do Bhagavad Gita que nem sempre é claramente expressa, mas que é significativa para todo buscador espiritual: como a desesperança de Arjuna, retratada no capítulo “Não quero lutar”, se transforma na decisão corajosa que ele expressa a Krishna no final do Bhagavad Gita?
Por Teu poder divino, ó Infalível, destruíste minhas ilusões e agora estou novamente sereno. Livre da dúvida, estou agora firme e desejo agir de acordo com os Teus ensinamentos. [1]
No prefácio da tradução inglesa de 1890, William G. Judge enfatiza que Arjuna não deve ser visto apenas como um príncipe lutando por sua herança, mas também como um protótipo de todo ser humano que busca iluminação e libertação.
Além disso, segundo Judge, o Bhagavad Gita descreve a evolução de um povo no sentido de que os instintos inferiores podem e devem ser superados na luta por um destino superior. Arjuna torna-se, portanto, um exemplo do buscador individual e um representante da humanidade que está em processo de busca e desenvolvimento. A “batalha” descrita no Bhagavad Gita não se refere “apenas à grande luta que a humanidade trava, mas também à luta que se torna inevitável assim que qualquer indivíduo humano decide confiar à sua natureza superior a condução de sua vida” [2].
Nesse contexto, o Bhagavad Gita surge como um livro de grande importância para o buscador contemporâneo que almeja a libertação. Como a luta interior de Arjuna pelo reino perdido, o divino dentro de si, se manifesta hoje? Ou: como podemos passar do desânimo e do abatimento à coragem de buscar, encontrar e vivenciar o divino em nós mesmos?
A busca pelo divino dentro de nós
A apresentação de Arjuna como um “príncipe que perdeu seu reino” é encontrada em muitos mitos da literatura esotérica, bem como em contos de fadas que apontam para outro mundo e tempo. Podemos ver esse mesmo princípio refletido nas histórias de Buda, Parsival, Christian Rosacruz e outros.
A percepção de uma perda fundamental, latente nos seres humanos, as perguntas e buscas que daí surgem e a experiência de “estar exilado” em um mundo imperfeito são pontos de partida de toda procura que brota no coração.
No Bhagavad Gita, esse estado é simbolicamente retratado pelo exílio de Arjuna em florestas desconhecidas e inóspitas. Tanto Arjuna quanto seus irmãos buscam aliados que possam apoiá-los na luta para reconquistar seu reino, e os encontram nos níveis físico-material e espiritual.
A inquietação do coração é o ponto de partida para a jornada rumo à iluminação. Essa inquietação é que nos impele a buscar a verdadeira realeza perdida dentro de nós. Tal busca permite a Arjuna reconhecer Krishna como um ajudante da humanidade e encarnação da alma divina, encontrá-lo dentro de si mesmo e receber seus ensinamentos.
Krishna é descrito no Bhagavad Gita como um ser separado de Arjuna, mas que pode ser visto como a voz do coração que adverte, clama e ensina — o guia e mestre que fala a partir do nosso íntimo.
Arjuna recorre a essa voz interior para ser instruído, e sua confiança nos ensinamentos de Krishna é a chave que abre a porta do conhecimento. É nesse momento que ele percebe que seu apego a tudo ao seu redor — aos amigos, parentes e desejos terrenos — deve ser superado. O ponto de partida para o diálogo entre Krishna e Arjuna é a percepção da impermanência do mundo e a busca pelo divino.Arjuna, inicialmente, fica desanimado e angustiado com a luta que o espera:
Ai de nós, que grande crime estamos para cometer: eliminar nossos parentes, levados pela ambição do poder! Bem melhor seria se nos rendêssemos aos inimigos armados e nos deixássemos matar na luta, sem armas nem defesa! [3]
No segundo capítulo, Krishna responde ao desespero de Arjuna:
Andas triste por algo que tristeza não merece — e tuas palavras carecem de sabedoria. O sábio, porém, não se entristece com nada, nem por causa dos mortos, nem por causa dos vivos. […] É eterno, permanente, imutável, inconcebível e inalterável […] Alguns consideram o espírito interior um milagre, enquanto outros falam dele com admiração, […] mas ninguém o reconhece. [4]
Se transferirmos o desespero de Arjuna para o ser humano de hoje em sua luta pela libertação das amarras deste mundo, a luta será dentro de tal pessoa, e os “oponentes”, ou aqueles a serem mortos, serão símbolos de suas conexões e vínculos com este mundo.
Assumir essa luta exige coragem: deixar de lado todos os hábitos e apegos mundanos.
Krishna aconselha:
“Seja indiferente ao prazer e à dor, ao ganho e à perda, à vitória e à derrota, e entre na luta assim. Renuncie a todo desejo de vantagem e a todo medo de fracasso. Busque equanimidade em suas ações. Permaneça devoto a mim.”
Com essas e outras explicações sobre o caminho que leva ao conhecimento da verdade, ou seja, ouvindo a voz do coração, Arjuna age como qualquer outro buscador: inicia a jornada de volta ao “reino original, que não é deste mundo”, como descrito no Novo Testamento. Ouvir a voz interior exige deixar constantemente de lado todos os desejos e apegos a este mundo. A escuta e a atenção interior nos encorajam a perceber os impulsos transmitidos.
Será que experimentamos essa coragem dentro de nós?
O Caminho do Conhecimento
Nos capítulos de 2 a 14 [5] do livro Bhagavad Gita, Krishna explica os principais passos e o conhecimento do caminho para a libertação. Todas as escrituras descrevem o aumento do autoconhecimento em estágios. Nesse caminho, o buscador se aproxima cada vez mais de Krishna e o reconhece como o “Espírito Supremo” que habita nele. Ao se reconectar com esse Espírito Supremo (o ELE, que é inexplicável e indescritível, que transcende toda razão e faz o tempo e o espaço passarem), Arjuna supera sua desesperança, tristeza e dúvida.
No capítulo 15, Krishna fala com Arjuna sobre o conhecimento do Espírito Supremo:
Eu habito nos corações de todas as pessoas […] porque estou acima do destrutível e até acima do indestrutível, por isso sou chamado de Espírito Supremo tanto no mundo quanto nos Vedas. Aquele que não é enganado reconhece-me como o Espírito Supremo, conhece todas as coisas e adora-me em todas as formas e condições. É assim que expliquei a vocês […] essa ciência sagrada. […] Quem a entende […] torna-se um homem sábio e o fazedor de tudo o que precisa acontecer. [6]
O que isso pode significar para as pessoas de hoje?
Vivemos em um mundo de luta, ameaçados por desastres ambientais, guerras e novas doenças. A sociedade está dividida; famílias e amizades foram destruídas pela crise do coronavírus. Velhos dogmas, hábitos e crenças já não se aplicam. Para onde tudo isso leva? O que nos espera no futuro? Não poderíamos nos desesperar e nos desanimar como Arjuna? Como ele, estamos abertos o suficiente, já que não perdemos completamente a memória do nosso ser mais íntimo, que não é deste mundo, para que ainda possamos lutar pelo nosso reino interior?
“De onde vem seu desânimo?”, diz Krishna a Arjuna. “É degradante. Deixe essa desprezível fraqueza de coração e erga-se.” [7]
Será que nós reconhecemos todo o apego a este mundo, nossos medos, preocupações, desejos e vontades como nossos inimigos? Reconhecemos neles os inimigos do nosso verdadeiro eu? Se for assim, podemos nos preparar para o caminho que leva à libertação! Como a Bíblia nos lembra fortemente, todos somos filhos de Deus e chamados à liberdade. Krishna, Cristo e todos os grandes seres no Espírito que nos mostram o caminho e, na maior necessidade, podemos ouvir sua voz dentro de nós, a “voz do silêncio”.
É indivisível, incorruptível […] eterna, universal, invisível. É sem nascimento e não conhece a morte. Permite-se ser prazer e dor […], vitória ou derrota, não importa […]. Torne-se indiferente ao sucesso ou fracasso, […] pois aqueles que desprezam a recompensa por seus atos não nascerão novamente na Terra e entrarão nesse estado eternamente feliz, livre de todas as dificuldades. [8]
Da recusa à ação consciente
Quando Arjuna se recusava a lutar, estava dominado pela confusão e pelo apego. No final, ele diz, em essência, que agora compreende seu dever e está disposto a agir. Sua coragem não nasce da ausência de medo, mas da clareza que encontrou.
Buscar a “voz do silêncio” dentro de nós nos leva ao conhecimento e nos permite trilhar o caminho. Se a ouvimos, recebemos dela a coragem de seguir os ensinamentos adquiridos, como Arjuna fez no final do Bhagavad Gita.
REFERÊNCIAS:
[1]O Bhagavad Gita (BG), O Livro da Devoção – Ensaios sobre o Gita – Capítulo XVIII –
disponível em https://www.theosociety.org/pasadena/gita/bg-eg-hp.htm
[2] BG: Palavras introdutórias por W.G. Judge 1890, p. VII
[3] BG, Capítulo 1: O Desespero de Arjuna, p.5
[4] BG, Capítulo 2: Devoção Baseada em Ensinamentos Especulativos, p. 9/10
[5] Uma descrição dos diferentes capítulos iria além do formato e propósito deste artigo. Por
favor, consulte as várias discussões detalhadas do Bhagavad Gita, por exemplo, Bhagavad
Gita Buch Empfehlung Übersetzung und Kommentar[6] BG, Capítulo 15: Devoção através do conhecimento do Espírito Supremo, p. 75/76
[7] BG, Capítulo 2: Devoção baseada nos ensinamentos especulativos, p.7
[8] BG, Capítulo 2: Devoção baseada nos ensinamentos especulativos, p.
