{"id":92298,"date":"2021-11-18T09:34:44","date_gmt":"2021-11-18T09:34:44","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/logon_article\/platao-a-alma-mortal-e-a-alma-divina-do-ser-humano\/"},"modified":"2025-01-01T16:33:50","modified_gmt":"2025-01-01T16:33:50","slug":"platao-a-alma-mortal-e-a-alma-divina-do-ser-humano","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/platao-a-alma-mortal-e-a-alma-divina-do-ser-humano\/","title":{"rendered":"Plat\u00e3o: a alma mortal e a alma divina do ser humano"},"content":{"rendered":"<p><iframe title=\"Spotify Embed: #32 Plat\u00e3o e a reminisc\u00eancia da alma\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/1FWeNODjwdeeOQQ7qaqRPa?si=3Hx8xiGjTLi8ZM7k5S1xlg&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">O fil\u00f3sofo grego Plat\u00e3o, nascido em Atenas em 428\/427 a.C., veio de uma fam\u00edlia nobre. Alguns de seus parentes mais pr\u00f3ximos foram membros de \u00f3rg\u00e3os do governo \u2013 tanto da tirania olig\u00e1rquica de Atenas como tamb\u00e9m da democracia que se restabeleceu em seguida. Mas Plat\u00e3o decidiu ir contra a carreira pol\u00edtica. Como relata Arist\u00f3teles, de in\u00edcio, Plat\u00e3o foi um seguidor dos ensinamentos de Cr\u00e1tilo Heraclitiano. A partir da idade adulta tornou-se aluno de S\u00f3crates. Esfor\u00e7ou-se para levar uma vida virtuosa e piedosa, na qual a justi\u00e7a e a realiza\u00e7\u00e3o do bem divino eram primordiais.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">A alma desempenha um papel central na obra de Plat\u00e3o. \u00c9 a alma que mant\u00e9m o ser humano mais pr\u00f3ximo do divino; \u00e9 ela que \u00e9 imortal e reencarna \u2013 desde que o ser humano tenha se reconectado com sua origem divina. No <em>Timeu, <\/em>obra tardia de Plat\u00e3o, aprendemos sobre a origem da cria\u00e7\u00e3o, que inclui a alma. Primeiro, o deus eterno criou o deus que sempre est\u00e1 em evolu\u00e7\u00e3o na forma de uma esfera: isto \u00e9, nossa Terra divina original. Ela \u00e9 um ser vivo, um deus em constante mudan\u00e7a. Depois, ele p\u00f4s\u00a0a alma do mundo em seu centro. Dando mais um passo adiante, ele formou as almas humanas a partir da alma do mundo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Para criar a alma do mundo, &#8220;entre o ser\u00a0indivis\u00edvel, que \u00e9 imut\u00e1vel, e o ser divis\u00edvel, que \u00e9 gerado nos corpos, misturou uma terceira forma\u00a0de ser feita a partir daquelas duas\u201d (<em>Timeu<\/em> 35a, p. 105).\u00a0Esses tr\u00eas componentes \u2013 o ser indivis\u00edvel, o ser divis\u00edvel e o ser que surge a partir da conex\u00e3o entre os dois -,\u00a0por sua vez, ele misturou\u00a0diversas vezes, em propor\u00e7\u00f5es diferentes, para formar uma ideia. \u00c9 a partir dessa mistura que se formou a alma do mundo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">O pr\u00f3ximo passo foi a cria\u00e7\u00e3o do ser humano e da alma humana. O deus eterno misturou o corpo humano com fogo, \u00e1gua, ar e terra, e providenciou sua cria\u00e7\u00e3o com uma alma, misturando as partes que restaram da alma do mundo, novamente, nas mesmas propor\u00e7\u00f5es de antes e, a partir dessa mistura, criou a alma humana. Ele delegou a tarefa de formar o corpo humano atual aos deuses jovens \u2013 que eram imortais apenas sob determinadas condi\u00e7\u00f5es. Eles envolveram a alma imortal com um corpo mortal e adicionaram uma alma mortal com desejos, paix\u00f5es, dor, medo, raiva e sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Foi assim que a alma imortal ligou-se a um corpo mortal, com uma alma mortal. Para a alma imortal, eles formaram a cabe\u00e7a como um corpo esf\u00e9rico, que se assemelhava \u00e0 Terra divina criada pelo deus. Por outro lado, eles separaram a alma mortal desse espa\u00e7o sagrado atrav\u00e9s do pesco\u00e7o e a baniram para o peito. Ent\u00e3o, eles tomaram a parte da alma mortal que \u00e9 ansiosa e deseja nutri\u00e7\u00e3o e atribu\u00edram para ela a regi\u00e3o do abd\u00f4men.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Como essa \u00e1rea n\u00e3o era acess\u00edvel \u00e0 raz\u00e3o e ao discernimento, eles deram ao f\u00edgado o dom da vis\u00e3o para que o homem pudesse entrar em contato com a verdade divina enquanto dormisse.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Segundo Plat\u00e3o, a alma humana \u00e9 dividida em duas partes: uma divina, imortal, e uma terrena, mortal. Via de regra, por\u00e9m, o ser humano est\u00e1 completamente conectado e identificado com a parte terrena e mortal da alma. Isso significa que ele n\u00e3o somente segue seus desejos, mas tamb\u00e9m est\u00e1 apartado do mundo divino e n\u00e3o consegue reconhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Plat\u00e3o fala sobre isso em sua famosa alegoria da caverna, na qual ele descreve os seres humanos sentados em uma caverna, amarrados pelas pernas e pelos pesco\u00e7os, de tal modo que suas cabe\u00e7as s\u00f3 podem olhar para a parede do fundo da caverna. A caverna \u00e9 iluminada por uma fogueira, \u00fanica\u00a0fonte de luz, que fica atr\u00e1s dos prisioneiros. Pr\u00f3ximo \u00e0 entrada da caverna, v\u00e3o passando pessoas sozinhas ou carregando\u00a0objetos, mas os prisioneiros\u00a0podem ver somente suas sombras. Eles\u00a0n\u00e3o podem ver\u00a0 as coisas como realmente s\u00e3o. Essas imagens sombrias s\u00e3o o mundo vis\u00edvel para n\u00f3s, humanos. Segundo Plat\u00e3o, \u00e9 atrav\u00e9s da alma que podemos alcan\u00e7ar o conhecimento. No entanto, a alma mortal, que apenas percebe as sombras, n\u00e3o \u00e9 capaz de realmente reconhecer, mas pode apenas fazer suposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Na chamada &#8220;par\u00e1bola da linha&#8221;, Plat\u00e3o descreve um pr\u00f3ximo n\u00edvel de cogni\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, ele passa a comparar a percep\u00e7\u00e3o do nosso mundo com as imagens espelhadas na superf\u00edcie da \u00e1gua. Nesse n\u00edvel, o ser humano pode ver as coisas com mais clareza e de maneira mais diferenciada a partir de seus sentidos. Ele ainda n\u00e3o tem nenhum conhecimento real sobre o que v\u00ea, mas forma opini\u00f5es sobre isso.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Somente quando a alma mortal se direciona para o esp\u00edrito, para o <em>nous<\/em>, ela pode se tornar uma alma capaz de discernir: ent\u00e3o, come\u00e7a a investigar o que v\u00ea e chega a entender o mundo por meio de hip\u00f3teses e pensamento l\u00f3gico. Ao fazer isso, o ser humano j\u00e1 tem acesso ao mundo das ideias \u2013 o mundo que corresponde \u00e0 vida divina original \u2013 atrav\u00e9s de sua conex\u00e3o com o esp\u00edrito. Na alegoria da caverna, Plat\u00e3o mostra a conquista do mundo das ideias por pessoas que deixaram a caverna e foram se adaptando lentamente \u00e0 luz do sol. Agora, elas podem reconhecer as ideias que est\u00e3o por tr\u00e1s das coisas, e, nessa escola de pensamento, captam uma realidade mais elevada do que as pr\u00f3prias coisas f\u00edsicas em si.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Elas s\u00e3o captadas pelo pensamento puro, com aux\u00edlio da alma imortal, como arqu\u00e9tipos do ser real. Al\u00e9m disso, nesse n\u00edvel, a alma \u00e9 dotada de raz\u00e3o. A raz\u00e3o \u00e9 o exemplo que nos indica o que \u00e9 certo ou errado no sentido de uma b\u00fassola \u00e9tica interna, baseada nas leis do esp\u00edrito.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Entretanto, o ser humano s\u00f3 ir\u00e1 adquirir o verdadeiro conhecimento quando sua alma puder perceber n\u00e3o apenas o mundo das ideias, mas tamb\u00e9m penetrar no terreno primordial, onde n\u00e3o h\u00e1 condicionamentos. \u00c9 nesse fundamento primordial que se encontra o princ\u00edpio original divino, o in\u00edcio da cria\u00e7\u00e3o divina. Somente a\u00ed o mundo divino puro ir\u00e1 se abrir para o ser humano.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Como o ser humano pode alcan\u00e7ar esse conhecimento da cria\u00e7\u00e3o divina, segundo Plat\u00e3o? Ele precisa desenvolver-se caminhando em dire\u00e7\u00e3o a esse mundo divino. Plat\u00e3o parte do fil\u00f3sofo t\u00edpico ideal, que desvia sua alma do enredamento com o mundo terreno, volta-se para a alma divina e vive virtuosamente, lutando pelo bem em si mesmo e purificando sua alma terrena. Como mencionamos no in\u00edcio, somente a alma mortal conhece a dor, a raiva e os desejos. A alma que tem origem divina habita no reino do bem, que Plat\u00e3o iguala \u00e0 luz do sol em sua par\u00e1bola do sol. Nessa par\u00e1bola, a alma \u00e9 comparada ao sol. Assim como somente a luz do sol permite que o olho perceba os objetos, somente o bem da alma possibilita o conhecimento do mundo verdadeiro.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Assim, a percep\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o primordial nada tem a ver com uma capta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, mas muito mais com um olhar e o fato de habitar no mundo das ideias com uma compreens\u00e3o ao mesmo tempo intuitiva da cria\u00e7\u00e3o original. A percep\u00e7\u00e3o do bem precisa vir com um estado de ser. Ent\u00e3o, a verdade por detr\u00e1s das ideias \u00e9 revelada ao observador. Isso significa que n\u00e3o s\u00e3o ideias tais como as formamos em nosso pensamento. As ideias sobre as quais Plat\u00e3o est\u00e1 falando s\u00e3o a verdade real. Elas s\u00e3o os arqu\u00e9tipos que permanecem,\u00a0 mesmo quando as coisas individuais passam. Isso inclui as ideias de liberdade, justi\u00e7a, amor, e tamb\u00e9m a ideia da pr\u00f3pria vida e de nossa cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Aqueles, enfim, cuja vida foi reconhecida como de grande piedade, s\u00e3o libertados, como de c\u00e1rceres, dessas regi\u00f5es interiores da terra, e levados para as alturas da morada pura, indo morar na superf\u00edcie da verdadeira terra! E, entre estes, aqueles que pela filosofia se purificaram de modo suficiente passam a viver absolutamente sem os seus corpos, durante o resto do tempo, e a residir em lugares ainda mais belos que os demais. Mas descrever esses lugares n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil nem poss\u00edvel, pois temos pouco tempo! (<em>F\u00e9don<\/em> 114b-c, p. 122)<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3>Refer\u00eancias<\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\">Erler, Michael.\u00a0<strong>Plato<\/strong>. C.H. Beck Verlag, Munich 2006.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Plat\u00e3o. <strong>F\u00e9don<\/strong>. In: <em>Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores<\/em>. 2\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1979.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Plat\u00e3o. <strong>Timeu-Cr\u00edtias<\/strong>. Coimbra: Centro de Estudos Cl\u00e1ssicos e Human\u00edsticos, 2011.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Plato, <strong>The State<\/strong> (Politeia).\u00a0Philipp Reclam Verlag, Stuttgart 1982.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Plato, <strong>Complete Works<\/strong>\u00a0vol 4.\u00a0Rowohlt Taschenbuch Verlag GmbH, Reinbeck bei Hamburg, 25th ed. 2019.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">\n","protected":false},"author":920,"featured_media":15583,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110108],"tags_english_":[],"class_list":["post-92298","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-spiritsoul-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/92298","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/920"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15583"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92298"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92298"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=92298"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=92298"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}