{"id":92031,"date":"2021-09-08T19:00:05","date_gmt":"2021-09-08T19:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/logon_article\/uma-realidade-impressionante\/"},"modified":"2021-09-08T19:00:05","modified_gmt":"2021-09-08T19:00:05","slug":"uma-realidade-impressionante","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/uma-realidade-impressionante\/","title":{"rendered":"Uma realidade impressionante"},"content":{"rendered":"<p class=\"text-align-justify\">Em outubro de 2020 ela recebeu o Pr\u00eamio Nobel de Literatura, a maior homenagem liter\u00e1ria poss\u00edvel. O Comit\u00ea elogiou seu trabalho assim: \u201cUma voz inconfundivelmente po\u00e9tica, tornando a exist\u00eancia individual universal, com uma beleza austera&#8221;.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Louise, que nasceu em 22 de abril de 1943, cresceu em Long Island, New York. Sua m\u00e3e vinha de uma fam\u00edlia judaico-russa; seus av\u00f3s paternos eram judeus h\u00fangaros que emigraram para os Estados Unidos. Como professora adjunta e escritora residente Rosencrantz, ela se ligou \u00e0 Universidade de Yale.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Os dois poemas mencionados no artigo do jornal falavam uma linguagem que me estimulou a saber mais.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Faz tempo que Louise Gl\u00fcck \u00e9 uma das autoras mais interessantes dos Estados Unidos, mas na Holanda seu trabalho n\u00e3o tem muitas edi\u00e7\u00f5es e somente um punhado de poemas foi traduzido para revistas liter\u00e1rias. Um de seus tradutores foi Erik Menkveld, antigo cr\u00edtico do jornal \u201cVolkskrant\u201d (Jornal do Povo).<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Cheguei a pensar em enviar um e-mail para ela. Mas isso logo se mostrou bem dif\u00edcil. Mesmo quando recebeu o Pr\u00eamio Nobel de Literatura \u2013 algo que ela pensava que nunca ocorreria em sua vida \u2013 continuou sendo modesta e se&nbsp;recusa&nbsp;a aparecer nos holofotes, nas sess\u00f5es fotogr\u00e1ficas e nas entrevistas:<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>\u201c<\/em>Tenho forte avers\u00e3o a entrevistas e fiz bem poucas em minha (agora) bem longa vida. Ent\u00e3o preciso negar a sua, apesar de ser grata por seu interesse&#8221;<fn value=\"1\">Colette Demil, Groots in bescheidenheid [Grand in modesty], Magazine of the Orde van de Prince<\/fn>.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Na \u00e9poca, Erik Menkveld escreveu-lhe uma carta fict\u00edcia.<fn value=\"2\">Hoogachtend [Yours truly], Erik Menkveld, letter to Louise Gl\u00fcck. NRC Handelsblad October 9, 2020.<\/fn><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Ouso me render aos seus poemas, ao que eles me dizem e ao que eles querem me dizer. Posso cham\u00e1-la de poetisa que se determina pelo \u00e2mago da vida? Ela d\u00e1 palavras \u00e0 solid\u00e3o, decl\u00ednio, desespero, morte e perda, \u00e0s vezes usando um tom emocional, e depois novamente usando um tom direto, claro e at\u00e9 mesmo a\u00e9reo. Ela alimenta a esperan\u00e7a e encontra for\u00e7as para continuar, apesar de tudo, e para se levantar sempre, mais e mais. Sutil, mas acess\u00edvel, ela se det\u00e9m nas grandes quest\u00f5es da vida.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Eu me pergunto quem \u00e9 o \u201ceu\u201d em seus poemas, quem \u00e9 o \u201cmeu\u201d e o \u201cseu\u201d.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">O poema \u201cSunset\u201d (Crep\u00fasculo) come\u00e7a assim:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Minha grande felicidade<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">\u00e9 o som que sua voz produz<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">quando me chama,<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">mesmo em desespero; minha tristeza.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">E ela termina dizendo:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">E eu sempre respondo, constantemente.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">[\u2026]<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&#8230; Minha ternura<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">deveria ser evidente para voc\u00ea<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">na brisa da noite de ver\u00e3o<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">e nas palavras que se tornam<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">sua pr\u00f3pria resposta.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Na colet\u00e2nea <em>The Wild Iris<fn value=\"3\">&#8220;Sunset&#8221;, &#8220;The Red Poppy&#8221;, &#8220;Matins&#8221;, &#8220;Retreating Wind&#8221;, &#8220;The Wild Iris&#8221;&nbsp;and &#8220;Clear Morning&#8221;&nbsp;are published in&nbsp;Louise Gl\u00fcck, &#8220;The Wild Iris&#8221;. The Ecco Press, 1992.<\/fn><\/em> (\u00cdris Selvagem)&nbsp;ela escreve a partir da perspectiva das flores, utilizando a linguagem delas. Por exemplo, ela deixa que <em>\u201c<\/em>A Papoula Vermelha<em>\u201d<\/em> conte:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">[&#8230;] Tenho<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">um senhor no C\u00e9u<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">chamado sol e eu me abro<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">para ele, mostrando<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">o fogo de meu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, fogo<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">como a presen\u00e7a dele.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">O que poderia essa gl\u00f3ria ser<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">sen\u00e3o um cora\u00e7\u00e3o? [&#8230;]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Ent\u00e3o, de repente, bem no final, ela submete a pergunta aos leitores:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">[&#8230;] Voc\u00eas j\u00e1 se permitiram<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">abrir uma vez mais<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">algu\u00e9m que nunca mais<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">iria se abrir novamente? [&#8230;]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Seus poemas parecem ter uma esp\u00e9cie de di\u00e1logo interno entre eles. <em>\u201c<\/em>The Wild Iris<em>\u201d<\/em> (\u00cdris Selvagem) \u00e9 muito surpreendente: nele, a \u00edris afirma ter consci\u00eancia pr\u00f3pria. Os poemas respiram a atmosfera do outono: um tempo de despedida, de tristeza, mas tamb\u00e9m de alegria e de primavera, de vida nova. Ela descreve sua \u201cmorte\u201d no ch\u00e3o escuro, no inverno: acabando debaixo do ch\u00e3o para perecer ali em solid\u00e3o, cheia de medo, incapaz de falar. E como ela novamente ganha esperan\u00e7a depois do desespero, falando sobre a luz que est\u00e1 retornando, e o fim do sofrimento. A ressurrei\u00e7\u00e3o na primavera, a abertura da terra como uma porta que se abre para uma flor que nasce na luz.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">A \u00cdris retorna do outro mundo, e aquilo que havia sido esquecido encontra voz novamente. Ela descobre a luz da alma no cora\u00e7\u00e3o, a luz que sempre volta do esquecimento&#8230;<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">do centro de minha vida<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">veio uma grande fonte, de azul profundo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">&#8230; para reencontrar a voz para se expressar:&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">vou contar a voc\u00ea que eu poderia falar de novo!<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Para mim, estas palavras parecem falar sobre estarmos livres do esquecimento, querendo nos encorajar:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Para voc\u00eas, que n\u00e3o se lembram da passagem para o outro mundo&#8230;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">A morte n\u00e3o existe! Em todas as esta\u00e7\u00f5es sempre est\u00e1 fluindo uma vida eterna e cont\u00ednua!<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Li no jornal que a fam\u00edlia constitui um grande tema na colet\u00e2nea po\u00e9tica de Louise Gl\u00fcck. Trata-se das rela\u00e7\u00f5es entre pais e filhos, entre filhos dos mesmos pais, \u00e0s quais atribu\u00edmos obviamente um calor natural. Mas Louise revela as arestas vivas, o lado sombrio e incerto.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Parece que ela e os membros da fam\u00edlia v\u00e3o falando alternadamente. Como uma censura, ouvimos o aspecto humano perguntar nos poemas <em>Matins<\/em> (manh\u00e3s, em franc\u00eas):<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">O que meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 para voc\u00ea, para que<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">voc\u00ea tenha de parti-lo tantas vezes?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">E esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 muito honesta:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">\n[&#8230;] n\u00e3o posso amar<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">o que n\u00e3o posso compreender.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Na metade do poema, ele parece se transformar em uma acusa\u00e7\u00e3o contra o que est\u00e1 no alto:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">[&#8230;] voc\u00ea n\u00e3o revela praticamente nada.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Voc\u00ea \u00e9 como a \u00e1rvore do espinheiro:<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">sempre a mesma coisa, no mesmo lugar,<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">ou voc\u00ea \u00e9 mais a luva de raposa: mole, inconsistente?&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">[&#8230;]<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Voc\u00ea precisa ver<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Que esse sil\u00eancio que promove a cren\u00e7a<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">\u00e9 in\u00fatil para n\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Voc\u00ea deve ser tudo: a luva de raposa e a \u00e1rvore de espinheiro,<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">a rosa vulner\u00e1vel e a margarida resistente&#8230;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">somos levados a pensar<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">que n\u00e3o era poss\u00edvel voc\u00ea existir. [&#8230;]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">A dor ecoa nas linhas:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">[&#8230;] sob o peso leve<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">do cora\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e,<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">ou no sonho, primeiro<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">ser aquilo que nunca morreria.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">A conversa interna continua. Nos poemas \u201cRetreating Wind\u201d (Vento em retirada) e \u201cClear Morning\u201d (Clara Manh\u00e3), ressoa uma voz divina:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Quando fiz voc\u00eas, os amei.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Agora, tenho pena de voc\u00eas.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Eu lhes dei tudo de que precisavam:<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">cama de terra, manta de ar azul&#8230;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">[&#8230;]<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">suas almas j\u00e1 deveriam ser imensas a estas alturas;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">n\u00e3o o que elas s\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">coisinhas que falam&#8230;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Tenho observado voc\u00eas por tempo suficiente.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Posso falar com voc\u00eas da maneira que eu quiser,<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Mas voc\u00eas nunca aceitariam uma voz como a minha.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Essa voz diz de fato revelar-se <em>&#8220;<\/em>em detalhes da terra<em>&#8220;<\/em>, em gavinhas de clematis azuis, na luz do in\u00edcio da noite, sim, na luz da noite, e no vento suave do ver\u00e3o. A terna presen\u00e7a e a conex\u00e3o ainda seriam evidentes. Mas<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">minha tristeza (\u00e9) que n\u00e3o posso responder-lhes falando<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>&#8230;<\/em> como todos voc\u00eas gostariam. Voc\u00eas n\u00e3o aceitam minha voz<em>. <\/em>E por um momento eu penso: sim, essas \u201ccoisinhas falantes\u201d, somos n\u00f3s: n\u00f3s que somos mantidos enredados no aspecto meramente humano, nos detalhes meramente terrestres, nas discrep\u00e2ncias, no c\u00edrculo de causa e consequ\u00eancia.<em> <\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">As tr\u00eas vozes que surgem nos poemas me lembram o in\u00edcio do filme <em>Disobedience <\/em>(Desobedi\u00eancia). Um velho rabino come\u00e7a a falar assustadoramente com as palavras da Torah:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">No in\u00edcio<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Hashem criou tr\u00eas tipos de seres:<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">os anjos, os animais e os humanos.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Os anjos, Hashem criou a partir de sua palavra pura. Eles n\u00e3o s\u00e3o tendenciosos, n\u00e3o t\u00eam vontade de fazer o mal. Eles n\u00e3o se desviar\u00e3o de Sua cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Os animais s\u00e3o guiados por seus instintos, seguindo assim tamb\u00e9m a vontade de seu Criador.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Na Torah, \u00e9 dito que Hashem teve seis dias para criar esses seres.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Pouco antes do p\u00f4r-do-sol, Hashem tomou um punhado de terra e criou os seres humanos: homem e mulher. Os humanos seriam apenas quest\u00f5es secund\u00e1rias? Ou eles deveriam se tornar a coroa de sua obra? Ent\u00e3o, de que tipo seriam?<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Um ser humano \u00e9 uma criatura com o poder de ser desobediente.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">N\u00f3s somos os \u00fanicos seres com livre arb\u00edtrio: tanto o homem como a mulher.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Estamos em posi\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima \u00e0 luz dos anjos e aos desejos dos animais.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Hashem nos deu a escolha. Um direito e um fardo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">N\u00f3s escolhemos que tipo de vida complicada desejamos levar.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">S\u00e3o tr\u00eas tipos de cria\u00e7\u00f5es: o anjo, o animal e a humanidade. Ser\u00e1 que estamos de fato pr\u00f3ximos da luz espiritual? Ou estamos pr\u00f3ximos aos desejos do terreno? O ser humano recebeu o poder e a liberdade de escolha: se deve ou n\u00e3o &#8220;prestar aten\u00e7\u00e3o&#8221;. Um fardo \u2013 como diz Sartre, o fil\u00f3sofo franc\u00eas:&nbsp;&#8220;A humanidade est\u00e1 condenada \u00e0 liberdade&#8221;<em>.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Mas tamb\u00e9m \u00e9 um direito que tem import\u00e2ncia. Se voc\u00ea tivesse a coragem de reivindicar esse direito, essa assustadora liberdade, ent\u00e3o voc\u00ea tamb\u00e9m entenderia por que ela escreve em \u201cRetreating Wind\u201d (Vento em retirada):<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">O que quer que voc\u00eas esperassem<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">nunca iriam se encontrar no jardim<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Entre as plantas que crescem:<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Suas vidas n\u00e3o s\u00e3o circulares, como as delas.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Suas vidas s\u00e3o como o voo dos p\u00e1ssaros.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">\nUm ser humano, poderoso, todo-poderoso, em sua ascens\u00e3o rumo \u00e0 vida divina.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Agora estou preparado para impor a luz sobre voc\u00eas.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<h3>A \u00cdris Selvagem<\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>No final de meu sofrimento<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>havia uma porta.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>Ou\u00e7a-me: aquilo que voc\u00ea chama de morte<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>eu me lembro.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>Na superf\u00edcie, ru\u00eddos, galhos do pinheiro que se deslocam.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>Depois nada. O sol fraco<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>cintilou sobre a superf\u00edcie seca.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>\u00c9 terr\u00edvel sobreviver<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>como consci\u00eancia<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>enterrado na terra escura.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>Depois acabou: aquilo que voc\u00ea teme, <\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>por ser uma alma incapaz de falar, <\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>terminando de repente. <\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>A terra dura dobrando-se um pouco. <\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>E o que eu imaginei serem p\u00e1ssaros<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>voando em arbustos baixos.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>Para voc\u00ea que n\u00e3o se lembra<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>da passagem para o outro mundo,<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>vou contar que eu poderia falar de novo: n\u00e3o importa,<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>volta do esquecimento, volta<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>para encontrar uma voz:<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>do centro da minha vida veio<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>uma grande fonte: azul profundo,<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>sombras na \u00e1gua do mar azul.<\/em><\/p>\n<h3><em>&nbsp;<\/em><br \/>\nClara Manh\u00e3<\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>Tenho observado voc\u00eas por tempo suficiente.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>Posso falar com voc\u00eas da maneira que eu quiser.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>Eu me submeti \u00e0s suas prefer\u00eancias, observando<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>pacientemente<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>as coisas que voc\u00eas amam,<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>falando apenas por meio de ve\u00edculos,<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>nos detalhes da terra, como voc\u00eas preferem:<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>nas gavinhas de clematis azul claro no in\u00edcio da noite<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>voc\u00eas nunca aceitariam uma voz como a minha,<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>indiferente aos objetos que voc\u00eas nomeiam ativamente<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>como suas bocas:<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>pequenos c\u00edrculos de medo.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>E todo esse tempo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>eu me entreguei \u00e0 limita\u00e7\u00e3o de voc\u00eas,<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>pensando que voc\u00eas se livrariam dela,<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>mais cedo ou mais tarde.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>A mat\u00e9ria pensante n\u00e3o poderia absorver seu olhar para<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>sempre<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>\u2013 obst\u00e1culo para as clematis pintando<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>flores azuis na janela da varanda \u2013<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>N\u00e3o consigo continuar<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>restringindo-me a imagens<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>porque voc\u00eas acham que \u00e9 seu direito<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>contestar meu significado:<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>Agora estou preparado para impor<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>a luz sobre voc\u00eas.<\/em><\/p>\n","protected":false},"author":923,"featured_media":14633,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110069],"tags_english_":[],"class_list":["post-92031","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-art-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/92031","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/923"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14633"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92031"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92031"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=92031"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=92031"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}