{"id":91790,"date":"2021-05-08T12:21:30","date_gmt":"2021-05-08T12:21:30","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/logon_article\/dom-quixote-a-metafora-do-caminho\/"},"modified":"2025-01-02T13:31:04","modified_gmt":"2025-01-02T13:31:04","slug":"dom-quixote-a-metafora-do-caminho","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/dom-quixote-a-metafora-do-caminho\/","title":{"rendered":"Dom Quixote, a met\u00e1fora do caminho"},"content":{"rendered":"<p><iframe title=\"Spotify Embed: #69 Dom Quixote - a met\u00e1fora do caminho\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/0O1lcjcLXpQm8de4pgAhGO?si=r8499eibRW-F-Q93Lxl_JQ&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">H\u00e1 alguns anos tive uma intui\u00e7\u00e3o sobre o significado da <em>Il\u00edada<\/em> e da <em>Odisseia<\/em>, duas obras que me acompanharam durante toda minha vida: de repente me passou pela cabe\u00e7a que a <em>Il\u00edada<\/em>, no mundo da guerra de Troia, com todos os seus her\u00f3is e deuses e o incessante ru\u00eddo dos metais, representava o mundo tal como \u00e9, com as for\u00e7as c\u00f3smicas que incidem no seu curso, o inexor\u00e1vel curso do destino. \u00a0A <em>Odisseia<\/em>, que realmente \u00e9 um livro moderno, representaria, depois do aterrador conhecimento do mundo no qual \u201cse vive\u201d\u201c, o outro caminho de Ulisses, a volta ao si-mesmo, imortal, a p\u00e1tria primog\u00eanita, \u00cdtaca, onde Pen\u00e9lope, sua alma, o esperou por muitos anos. \u00c9 o retorno que todo ser humano, depois de purificar-se atrav\u00e9s de experi\u00eancias sem fim, h\u00e1 de realizar para voltar \u00e0 origem, ao ser divino.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Tamb\u00e9m sempre me questionei sobre o olhar de Cervantes ao escrever <em>Dom Quixote<\/em>. Nunca tive d\u00favidas sobre seu talento, generosidade, idealismo, sabedoria; de sua escrita transparente, ir\u00f4nica, compassiva. Por\u00e9m, sempre me escapava, mais que a cozinha, o sabor da obra. Aparte das fontes e interpreta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, cuja investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o termina, eu buscava outro significado. N\u00e3o a novela c\u00f4mica,\u00a0rom\u00e2ntica,\u00a0metacriadora, que ela \u00e9, mas sim seu significado oculto: o que nos revelava da verdadeira ess\u00eancia humana. A genialidade da obra e o monumental acr\u00e9scimo de coment\u00e1rios cr\u00edticos escureceram muitas coisas que deveriam ficar veladas,\u00a0e ficaram.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Da mesma forma, sempre me perguntei sobre\u00a0Shakespeare, cujo olhar era\u00a0um cristal t\u00e3o transparente que parecia ter desaparecido toda a entidade criadora: atr\u00e1s das obras de Shakespeare n\u00e3o existe ningu\u00e9m, n\u00e3o existe um ego que se mostre, somente um espelho que mostra caracter\u00edsticas e situa\u00e7\u00f5es. E uma imensa cria\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica que reconstruiu o idioma ingl\u00eas no per\u00edodo isabelino.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Por\u00e9m, voltemos a Cervantes. Um belo dia, como me aconteceu com as obras de Homero, fez-se um pouco de luz e intui um sentido global das idas e vindas do cavaleiro e da sua triste figura, e seu escudeiro Sancho.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Em linhas gerais, \u00e9-me revelado que o Quixote \u00e9 uma obra sobre o caminho: refiro-me ao caminho interior, ao caminho da consci\u00eancia que avan\u00e7a, se expende e se recomp\u00f5e, sempre mutante, por\u00e9m, sem perder de vista seu destino: a compreens\u00e3o da unidade e da harmonia da cria\u00e7\u00e3o. Isso est\u00e1 exposto no seu discurso sobre a Idade de Ouro diante dos at\u00f4nitos cabreiros, uns seres humildes aos quais \u00e9 revelado o mist\u00e9rio, como aos pastores de Bel\u00e9m. Nele se revela o idealismo esot\u00e9rico do Renascimento, que emana do mundo cl\u00e1ssico, com suas implica\u00e7\u00f5es herm\u00e9ticas e orientais. N\u00e3o esque\u00e7amos que \u00e9 atribu\u00eddo a Cervantes somente a tradu\u00e7\u00e3o da obra de um tal Cide Bebengueli, autor ar\u00e1bico. O mundo \u00e1rabe ainda est\u00e1 muito perto da Espanha; n\u00e3o se passou dois s\u00e9culos desde sua derrota definitiva e Cervantes, ainda vivo, sai para combater rebeli\u00f5es de mouriscos em Granada e o Levante espanhol. E em todo o Mediterr\u00e2neo existe \u201ca amea\u00e7a do Turco\u201d. Cervantes luta como um soldado em Lepanto e \u00e9 cativo em Angel durante oito anos.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Dom Quixote realiza tr\u00eas sa\u00eddas. Na segunda vez vai acompanhado de Sancho, que convenceu a sua mulher para que o deixasse partir, pois vai obter lucro. Sancho \u00e9 um ser com os p\u00e9s na terra, materialista e sensato, e uma ajuda imensa para D. Quixote em todas as suas desgra\u00e7as. \u00c9, nesse sentido simb\u00f3lico, a outra parte de n\u00f3s mesmos, o que chamamos de ego ou consci\u00eancia natural, que tem que cuidar da sobreviv\u00eancia e das necessidades b\u00e1sicas. Sem ela n\u00e3o seria poss\u00edvel o caminho, porque a rosa tem que crescer desde baixo, desde a consci\u00eancia natural, que no melhor dos casos compreende e colabora.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Atrav\u00e9s de D. Quixote e Sancho, Cervantes coloca o mito cavalheiresco, proven\u00e7al, na superf\u00edcie da terra, porque na terra se compreende os segredos do de cima e do debaixo. Poder\u00edamos dizer que em Cervantes o mito cavalheiresco se faz carne e sai pelos caminhos; continuamente nos mostra n\u00e3o como devemos ser, mas como somos: Percival representa o final de seu trajeto, um ideal sem maculas nem fissuras; D. Quixote cai uma e outra vez: atr\u00e1s ficaram os c\u00e2nones cavalheirescos e somente fica o caminho. Assim, Cervantes funda a modernidade depois da mentalidade medieval.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Mas, voltemos a nossa tese.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Se tomarmos em conta o de cima, a vertical que baixa das estrelas, e o debaixo, a horizontal que caminha, D. Quixote acomete o terceiro caminho: fazer seu pr\u00f3prio caminho. Por isso sai tr\u00eas vezes para experimentar o que leu e quer viver em sua carne. Aquele que prega com efusiva eloqu\u00eancia \u00e9 algo fora do comum para a mentalidade humana, por isso Cervantes tem que criar um personagem \u201clouco\u201d. S\u00f3 um louco, como uma crian\u00e7a, conecta-se diretamente com a verdade e \u00e9 capaz de nos oferecer uma verdade que pode ser \u00f3bvia ou \u201cperdoada\u201d porque prov\u00e9m de um personagem que perdeu a raz\u00e3o, que abandonou as conven\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o e do tempo e adentrou nos infinitos horizontes da eternidade. D. Quixote, depois de cada aventura, fica destru\u00eddo, dolorido, confuso. E n\u00e3o podia ser de outro modo, porque em cada fa\u00e7anha em que ele enfrentou um fantasma interior, fechava a passagem para a evolu\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Cada obst\u00e1culo mostra um erro de percep\u00e7\u00e3o, o que todos n\u00f3s sofremos, e, ao experimentar, sa\u00edmos confusos e,\u00a0talvez justamente por isso, mais esclarecidos&#8230;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Digamos que os moinhos de vento podem representar o eon do destino, ou o do eterno retorno, a roda de samsara, que d\u00e1 voltas sobre si mesma e volteia tudo o que aparece a seu redor; mas tamb\u00e9m m\u00f3i o trigo, o alimento essencial: toda a li\u00e7\u00e3o da alquimia da consci\u00eancia que se alimenta e cresce confrontada com o ato. Os rebanhos s\u00e3o a consci\u00eancia tribal das conven\u00e7\u00f5es, \u00e9 a consci\u00eancia animal. Assim, Cervantes nos prop\u00f5e em seu Quixote\u00a0uma s\u00e9rie de enigmas sobre a evolu\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia, \u00e0 medida que avan\u00e7a a narra\u00e7\u00e3o, o caminho adquire sentido e o personagem se transforma. Como seus grandes ideais, &#8211; Amadis, Tirant lo Blanc, Percival, o cavaleiro da carro\u00e7a, os cavaleiros do ciclo art\u00farico -, D. Quixote faz seu caminho. Se n\u00e3o, de nada serviria tanta fanfarra idealista. A ideia tem que ser colocada em pr\u00e1tica para que frutifique e aclare o entendimento, e eleve a alma.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Na verdade, s\u00f3 um louco \u2013 existem os loucos de amor do sufismo \u2013 poderia aceitar o esfor\u00e7o tit\u00e2nico pela liberta\u00e7\u00e3o da alma. A vontade idealista d\u00e1 for\u00e7a ao mito e faz pensar em outras for\u00e7as que n\u00e3o sejam as puramente humanas para enfrentar gigantes e ex\u00e9rcitos. Porque o mito da liberdade leva aderidas as for\u00e7as da liberdade; o caminho evoca as for\u00e7as do caminho. Curiosamente, ao voltar e tamb\u00e9m recuperar-se da segunda sa\u00edda, estando ainda recluso, diante do medo geral, responde a seus amigos,\u00a0o padre e o barbeiro, que a amea\u00e7a do Turco se resolveria com a presen\u00e7a de mais cavaleiros andantes no mundo. Quer dizer, com mais gente com\u00a0consci\u00eancia, que \u00e9\u00a0\u00fanica coisa\u00a0que pode resolver realmente os problemas. E n\u00e3o tanto pela sua for\u00e7a destruidora de ex\u00e9rcitos, mas sim pela presen\u00e7a de sua luz no mundo, que anula e dissolve os conflitos.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">N\u00e3o vamos falar nem de judeus convertidos, nem de soldados, do cativeiro em Angel, do coletor de impostos nas terras de C\u00f2rdoba e de Sevilha, da pris\u00e3o, dos amores&#8230; ainda que as experi\u00eancias tenham preenchido uma vida que desembocou na obra mestra que sempre nos parece muito mais do que parecia.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">D. Quixote morre quando se acaba sua loucura, dir\u00edamos que purificou o cora\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o, e morre em paz, n\u00e3o por haver recobrado a sensatez, mas sim por haver feito seu caminho inici\u00e1tico, o caminho dos cavaleiros do graal.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13564,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110120],"tags_english_":[],"class_list":["post-91790","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-zeitgeist-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/91790","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13564"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91790"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91790"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=91790"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=91790"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}