{"id":90043,"date":"2020-01-02T15:26:55","date_gmt":"2020-01-02T15:26:55","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/logon_article\/prisioneiros-do-tempo-ha-saida\/"},"modified":"2020-01-02T15:26:55","modified_gmt":"2020-01-02T15:26:55","slug":"prisioneiros-do-tempo-ha-saida","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/prisioneiros-do-tempo-ha-saida\/","title":{"rendered":"Prisioneiros do tempo: h\u00e1 sa\u00edda?"},"content":{"rendered":"<p class=\"text-align-justify\">N\u00f3s n\u00e3o nascemos por nossa vontade. Ganhamos essa vida e temos um prazo de validade, que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 determinado por n\u00f3s. E vamos crescendo, vivendo, fazendo as coisas que normalmente todas as pessoas fazem: constituindo fam\u00edlia, trabalhando, pagando contas, nos realizando em gostos particulares, envelhecendo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">O tempo vai passando e a nossa vida vai se extinguindo. Vivemos num mundo de constante transforma\u00e7\u00e3o, de imperman\u00eancia e onde n\u00f3s, mesmo contra nossa vontade, mudamos, s\u00f3 pela a\u00e7\u00e3o do tempo. Quem \u00e9ramos quando crian\u00e7a, como adulto e como idoso se constitui de muitas diferen\u00e7as de valores, de percep\u00e7\u00e3o de mundo, de consci\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">E apesar de corrermos presos nesse trilho do tempo, n\u00f3s empreendemos mudan\u00e7as pessoais. N\u00f3s estudamos, conseguimos mudar h\u00e1bitos (nos esfor\u00e7amos por ser mais saud\u00e1veis, mais produtivos no trabalho, mais cultos), mas n\u00e3o conseguimos romper com a nossa limita\u00e7\u00e3o fundamental: a de uma consci\u00eancia egoc\u00eantrica, que enxerga o mundo de uma perspectiva separada do todo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">A nossa consci\u00eancia egoc\u00eantrica at\u00e9 pode ser uma consci\u00eancia ego-ampliada. Podemos ter compaix\u00e3o pelos animais, pelo planeta em que vivemos, podemos ampliar nosso ego pessoal a um ego familiar, que percebe a sua fam\u00edlia como a coisa mais importante e visa proteg\u00ea-la, at\u00e9 a um ego de um pa\u00eds, que eventualmente se coloca contra outros pa\u00edses. Mas, por mais que ampliemos essa consci\u00eancia a n\u00facleos maiores, continuamos sendo seres fundamentalmente egoc\u00eantricos e mostramos isso na primeira ocasi\u00e3o em que somos confrontados, em que pisam no nosso calo e reagimos, prontos para revidar, atacar de volta, ou fugir, no caso de ficarmos com medo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Apesar disso, muitas pessoas, ali\u00e1s, a maioria das pessoas, seguem aparentemente satisfeitas com as suas vidas, deixando o trilho do tempo as levar sem questionar muito sobre o porqu\u00ea de a vida ser assim, o que ela espera de n\u00f3s e quem somos verdadeiramente.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Outras pessoas se sentem como o Bill Murray no filme <em>Feiti\u00e7o do Tempo<\/em> (1993), no qual interpreta um rep\u00f3rter que, por raz\u00e3o desconhecida, fica preso todos os dias no mesmo dia, o dia em que ele fazia a reportagem sobre a tradicional comemora\u00e7\u00e3o em uma cidade pelas supostas previs\u00f5es meteorol\u00f3gicas de uma marmota. Ele acorda sempre no mesmo dia e tudo se repete, causando-lhe profunda ang\u00fastia.&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">H\u00e1 pessoas que sentem uma inquieta\u00e7\u00e3o com o correr dos dias, assim como o rep\u00f3rter do filme, como se estivessem aprisionadas em um <em>d\u00e9j\u00e0-vu,<\/em> e por isso partem em busca de um sentido mais amplo para a sua vida. Tais pessoas s\u00e3o almas j\u00e1 amadurecidas no girar da roda da vida e da morte em que vivemos, a roda que os indianos chamam Roda de Samsara, e na qual as experi\u00eancias de vida t\u00eam como objetivo nos lembrar que h\u00e1 uma consci\u00eancia mais profunda no nosso ser, que n\u00e3o \u00e9 egoc\u00eantrica, que prov\u00e9m do Todo e \u00e9 eterna, e nos sintonizar por completo com ela.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Essa consci\u00eancia \u00e9 ligada a todo alento da vida. Descobrindo-a interiormente podemos desvendar um verdadeiro sentido para a nossa exist\u00eancia. Essa \u00e9 a tarefa que temos como passageiros dessa viagem. Somos todos &#8220;passageiros&#8221; ou &#8220;viajantes&#8221; compenetrados numa jornada da qual j\u00e1 ouvimos falar in\u00fameras vezes, por meio das hist\u00f3rias contidas em filmes e livros, ou mesmo transmitidas oralmente e ensinadas pelos mais velhos (no caso de comunidades tradicionais onde a chamada modernidade n\u00e3o chegou), jornada que, a despeito dessa difus\u00e3o, desconhecemos quase que por completo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Por esse prisma podemos entender as varia\u00e7\u00f5es de atitude do rep\u00f3rter do filme depois que ele constatou que estava preso em um ciclo de repeti\u00e7\u00e3o. Nos primeiros \u201cdias repetidos\u201d sua atitude foi de nega\u00e7\u00e3o e irrita\u00e7\u00e3o: a ideia de permanecer por tempo indeterminado na cidade, na data comemorativa e no trabalho que ele odiava era aterradora. Por\u00e9m, assim que o personagem percebe que poderia tirar proveito da situa\u00e7\u00e3o, sua atitude confirma a imagem de arrogante e egoc\u00eantrico que foi apresentada ao espectador no come\u00e7o do filme: agora ele \u00e9 um dissimulado, um aproveitador, colhendo informa\u00e7\u00f5es num dia para usar em seu benef\u00edcio no dia seguinte. E, tendo se tornado muito bom nisso, ele usa suas habilidades para tentar conquistar aquela que ele sentia ser o amor da sua vida. Contudo, as habilidades adquiridas por meio da dissimula\u00e7\u00e3o e do ego\u00edsmo n\u00e3o foram capazes de ajud\u00e1-lo a ter sucesso nessa tentativa. O resultado \u00e9 a frustra\u00e7\u00e3o, que desse ponto espec\u00edfico se estende ao conjunto de sua vida. Tomado pelo t\u00e9dio e pela ang\u00fastia, suicida-se v\u00e1rias vezes, acordando sempre \u00e0s seis horas da manh\u00e3, no mesmo quarto de hotel e com o mesmo desgosto.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Temos na hist\u00f3ria do filme uma representa\u00e7\u00e3o da referida jornada do ser humano em busca do sentido da vida. Despertamos para essa busca quando percebemos o vazio essencial do correr do tempo, quando sentimos integralmente que de fato \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada de novo sob o sol\u201d. \u00c9 como se tudo sempre se repetisse, e essa repeti\u00e7\u00e3o nos causa desgosto. Mas com a capacidade de observar rec\u00e9m-adquirida somos tentados a nos tornar senhores e senhoras do tempo e, diante da previsibilidade do mundo, acreditamos ter encontrado a chave da sabedoria, a mesma chave que abriria a pris\u00e3o do tempo. Ledo engano. Na realidade, apenas pressentimos a exist\u00eancia de algo grandioso, t\u00e3o grandioso que seria capaz de preencher o vazio aberto pela percep\u00e7\u00e3o do ciclo de repeti\u00e7\u00e3o, mas, como o processo de transforma\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia n\u00e3o se consumou, ainda \u00e9 nossa consci\u00eancia egoc\u00eantrica que direciona nossas a\u00e7\u00f5es, e \u00e9 com ela que nos aproximamos daquele \u201calgo grandioso\u201d, na certeza de conquist\u00e1-lo. E quando nossa expectativa \u00e9 frustrada, percebemos que nada tinha mudado verdadeiramente, continuamos prisioneiros do tempo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">\u00c9 ent\u00e3o que, se o anseio for genu\u00edno, como era o do protagonista de nossa hist\u00f3ria, nossa capacidade de observa\u00e7\u00e3o se eleva a um n\u00edvel superior e passamos a encarar o tempo sem ansiedade ou expectativa. Assim como aconteceu com o rep\u00f3rter do filme, ficamos convencidos de que as a\u00e7\u00f5es egoc\u00eantricas n\u00e3o podem nos ajudar a encontrar o sentido da vida e somos tomados por um autoesquecimento que desobstrui nossa vis\u00e3o e dissolve as ilus\u00f5es acerca de n\u00f3s mesmos e do mundo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">N\u00f3s nos acostumamos a olhar para fora e a perceber tudo de fora para dentro, e achamos que as mudan\u00e7as precisam acontecer de fora para dentro tamb\u00e9m, mas, como dizia Gandhi, &#8220;n\u00f3s precisamos ser a mudan\u00e7a que queremos ver no mundo&#8221;. Uma mudan\u00e7a fundamental e real de consci\u00eancia s\u00f3 acontece a partir desse n\u00facleo da nossa consci\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 egoc\u00eantrico, nem suscet\u00edvel \u00e0 imperman\u00eancia das coisas. A partir do momento em que esse n\u00facleo \u00e9 vivificado, uma nova percep\u00e7\u00e3o surge, uma consci\u00eancia que nos eleva da condi\u00e7\u00e3o de prisioneiros do tempo, como aconteceu com o rep\u00f3rter no dia da marmota.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7304,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110069],"tags_english_":[],"class_list":["post-90043","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-art-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/90043","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7304"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=90043"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=90043"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=90043"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=90043"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}