{"id":89977,"date":"2019-12-05T20:41:52","date_gmt":"2019-12-05T20:41:52","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/logon_article\/inercia-ou-o-efeito-memoria\/"},"modified":"2019-12-05T20:41:52","modified_gmt":"2019-12-05T20:41:52","slug":"inercia-ou-o-efeito-memoria","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/inercia-ou-o-efeito-memoria\/","title":{"rendered":"In\u00e9rcia ou o efeito mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<h3>Mat\u00e9ria e mem\u00f3ria<\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\">Na medida em que voc\u00ea l\u00ea, as palavras s\u00e3o gravadas na mem\u00f3ria de trabalho do seu c\u00e9rebro. \u00c9 uma mem\u00f3ria de curto prazo. As palavras o tocam. Voc\u00ea quer pensar nelas. As palavras desenham um rastro na sua mem\u00f3ria. A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 armazenada em uma rede de neur\u00f4nios, o que significa que ocorre uma mudan\u00e7a tempor\u00e1ria na realidade f\u00edsica do seu c\u00e9rebro. Isto requer energia. O rastro de mem\u00f3ria \u00e9 t\u00e3o vol\u00e1til que consciente ou inconscientemente a energia deve fluir para sustent\u00e1-lo. A forma permanente da informa\u00e7\u00e3o parece bastante disforme e dispersa.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">O rastro de mem\u00f3ria \u00e9 uma forma concentrada <strong>tempor\u00e1ria<\/strong>, uma combina\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria para reter o conhecimento. Um livro impresso e encadernado tamb\u00e9m \u00e9 uma reorganiza\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria &#8211; com tinta e papel &#8211; em uma forma que cont\u00e9m informa\u00e7\u00e3o. Os livros impressos est\u00e3o se tornando datados. Os e-books, ainda mais ef\u00eameros, s\u00e3o armazenados em chips de mem\u00f3ria de acordo com uma reorganiza\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica <strong>tempor\u00e1ria<\/strong>. Baixar arquivos e escrever requer energia.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">E o tempo flui atrav\u00e9s de tudo isso. Esse fluxo determina se falamos de armazenamento <strong>tempor\u00e1rio<\/strong> ou permanente.&nbsp; Ele \u00e9 a chave para a nossa mem\u00f3ria. Consci\u00eancia e mem\u00f3rias s\u00e3o influenciadas pelo fluxo do tempo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<h3>Resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a<\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\">Voc\u00ea est\u00e1 em um vag\u00e3o de metr\u00f4 superlotado. Pela janela, v\u00ea flashes de luz e escurid\u00e3o se alternando no t\u00fanel. De repente, o trem freia e voc\u00ea ouve rangidos enquanto \u00e9 empurrado para a frente, at\u00e9 ser contido por outros passageiros que balan\u00e7am e se movem como voc\u00ea. Aos poucos, cada um retoma seu lugar. Esse efeito foi descrito por Ernst Mach \u2013 o f\u00edsico da velocidade do som &#8211; da seguinte forma:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Quando o trem balan\u00e7a, s\u00e3o as estrelas que fazem voc\u00ea cair.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Isso \u00e9 conhecido por In\u00e9rcia.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Viajando juntos no trem, nos movemos a uma velocidade de 80 km por hora. Se os freios forem acionados e o trem se desacelerar, nosso corpo tender\u00e1 a manter inalterado seu movimento. Nosso corpo \u00e9 permanentemente atra\u00eddo por todos os corpos celestes e pela Terra. Se nenhuma outra for\u00e7a for exercida sobre n\u00f3s, nosso movimento n\u00e3o ser\u00e1 mudado. Isaac Newton expressa isso como: \u201cF = ma\u201d, onde \u201cF\u201d representa a for\u00e7a, \u201cm\u201d representa a massa e \u201ca\u201d representa a acelera\u00e7\u00e3o ou mudan\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Minha massa n\u00e3o \u00e9 apenas uma cole\u00e7\u00e3o de mol\u00e9culas, mat\u00e9ria. \u00c9 antes de tudo uma resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a quando uma for\u00e7a \u00e9 aplicada ao corpo. Ernst Mach indica que estamos conectados puramente como mat\u00e9ria a todas as outras mat\u00e9rias do universo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<h3>Mat\u00e9ria em movimento<\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\">N\u00f3s, humanos, temos experi\u00eancia em lidar com a in\u00e9rcia. Se voc\u00ea quiser tirar \u00e1gua de uma banheira, sabe que precisa colocar sua m\u00e3o na \u00e1gua e iniciar movimentos para tr\u00e1s e para frente, primeiro lentamente, depois um pouco mais depressa, at\u00e9 sentir que atingiu exatamente a frequ\u00eancia certa: a \u00e1gua se move completamente com sua m\u00e3o. Ent\u00e3o, voc\u00ea amplia os movimentos e uma grande onda sai para fora da banheira.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">A mesma coisa acontece se voc\u00ea quiser empurrar um carrinho pesado para al\u00e9m da soleira: voc\u00ea o balan\u00e7a para frente e para tr\u00e1s algumas vezes, sente a frequ\u00eancia e, em seguida, amplia o movimento e espera que o ve\u00edculo role sobre a soleira. A frequ\u00eancia encontrada \u00e9 chamada de frequ\u00eancia natural. Com ela, \u00e9 poss\u00edvel transferir energia m\u00e1xima para o objeto em movimento. Ocorre uma resson\u00e2ncia entre quem faz o movimento e o que est\u00e1 sendo movido.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<h3>In\u00e9rcia herdada<\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\">Um resqu\u00edcio de mem\u00f3ria no c\u00e9rebro, uma possibilidade de mem\u00f3ria. Uma crian\u00e7a nasce com mem\u00f3ria pregressa de ser levada pela eternidade. Ela projeta seu desejo por esse deus condutor em sua m\u00e3e, garantia da sua sobreviv\u00eancia. A m\u00e3e \u00e9 humana e, portanto, incapaz de atender a t\u00e3o elevada expectativa. O desapontamento, experimentado como dor, deixa um vest\u00edgio de mem\u00f3ria dentro das c\u00e9lulas do corpo da crian\u00e7a. Com a felicidade de ser nutrida, cuidada e amada acontece o mesmo. Esses tra\u00e7os ser\u00e3o mais dif\u00edceis de decodificar mais tarde como uma mem\u00f3ria. No entanto, eles determinam a personalidade do ser.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Pelo sangue e DNA, somos herdeiros de nossos antepassados, parte de nossa \u00e1rvore geneal\u00f3gica.&nbsp; Nosso passado, o conjunto de mem\u00f3ria coletiva de toda nossa hist\u00f3ria de exist\u00eancia, determina nosso ser atual. E a vasta maioria dessas influ\u00eancias trabalha inconscientemente.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Nosso crescimento ocorre com base em nosso patrim\u00f4nio, em nosso passado. Crescemos em uma fam\u00edlia, comunidade e sociedade que t\u00eam preceitos, cren\u00e7as coletivas e leis que indicam como devemos nos comportar. Surgem conflitos entre nosso interior: somos conduzidos a certa maneira de fazer as coisas, por um lado, e as demandas sociais por outro.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Outro vest\u00edgio de mem\u00f3ria \u00e9 formado pela dor de se estar aprisionado. Como uma crian\u00e7a em guerra, mas ainda pior por causa de nosso desejo de mais liberdade. Qualquer que seja a colora\u00e7\u00e3o cultural pol\u00edtica da sociedade na qual algu\u00e9m cres\u00e7a, sua tend\u00eancia fundamental \u00e9 sempre conservadora. Regras, cren\u00e7as e leis n\u00e3o querem ser alteradas.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<h3>Eu em um mundo lento<\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\">Encontro-me, por assim dizer, em um vale rodeado por colinas e montanhas de for\u00e7as reacion\u00e1rias, de trilhas ativas na mem\u00f3ria, press\u00f5es sociais e obriga\u00e7\u00f5es. Todas essas encostas formaram-se no passado, mas me sinto sempre atual. Algo em mim me empurra \u00e0 autorrealiza\u00e7\u00e3o e, portanto, a escalar a encosta da montanha. Posso mover-me ou tenho que encontrar uma forma de ser movido por uma for\u00e7a mais elevada?<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Um vale parece um pouco com uma banheira&#8230; deve haver uma resson\u00e2ncia entre mim &#8211; com a minha massa como medida da minha in\u00e9rcia &#8211; e o que me toca? E o que \u00e9 que me toca?<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<h3>Mudan\u00e7a constante e a busca do ser<\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\">Nosso mundo \u00e9 definido pelo tempo e pelo espa\u00e7o. Ao longo do tempo, a maioria dos processos oscilam entre dois extremos, permitindo-nos experimentar a dualidade dial\u00e9tica, tal como luz e escurid\u00e3o. A terra gira e, portanto, a luz e a escurid\u00e3o alternam-se na sua superf\u00edcie. Toda vida aqui nasce, cresce rapidamente e morrer\u00e1 no devido tempo. Por\u00e9m, o ser humano \u00e9 diferente. Nele h\u00e1 um elemento de eternidade &#8211; embora para nossa consci\u00eancia seja apenas uma pr\u00e9-mem\u00f3ria. Esse elemento eterno est\u00e1 associado a um corpo material entre a concep\u00e7\u00e3o e o nascimento. A mat\u00e9ria \u00e9 c\u00edclica, no m\u00e1ximo move-se para tr\u00e1s e para a frente, lenta, mas seguramente. Da intera\u00e7\u00e3o das duas formas de ser, destas formas de movimento, nasce a consci\u00eancia e uma resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a que pode ser chamada \u201cmem\u00f3ria\u201d ou \u201ccapacidade de aprendizagem\u201d. O desejo de permanecer vivos leva-nos a pensar na melhor maneira de fazer isso. Infelizmente, lembramo-nos mais facilmente de experi\u00eancias negativas do que de experi\u00eancias positivas. Como se a felicidade n\u00e3o mudasse as nossas vidas para melhor.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<h3>A in\u00e9rcia no caminho para o ser<\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\">No nosso \u00edntimo, somos seres eternos, embora temporariamente deuses mortais com um profundo anseio por valores eternos: continuar a viver, felicidade eterna, amor perfeito, perman\u00eancia, conhecimento abrangente. A nossa consci\u00eancia \u00e9 parte da resist\u00eancia entre movimentos eternos e movimentos fict\u00edcios da dial\u00e9tica, que \u00e9 uma quest\u00e3o de nossas identifica\u00e7\u00f5es. Identifico-me com o vir a ser eterno ou com a autoimagem deste mundo de opostos constru\u00eddo a partir da mem\u00f3ria?<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Abandonar este \u00faltimo \u00e9 mais dif\u00edcil do que parece, \u00e9 lento. Com base nos rastros de mem\u00f3ria das nossas experi\u00eancias de vida, escrevemos e editamos constantemente a hist\u00f3ria em que n\u00f3s pr\u00f3prios assumimos o papel principal de her\u00f3i. Isso d\u00e1 \u00e0 nossa psique uma massa muito grande e, portanto, uma in\u00e9rcia igualmente grande, resist\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a e incapacidade de se mover e acelerar em um nova dire\u00e7\u00e3o. F = ma, com &#8220;m&#8221; imaginariamente grande. Como a acelera\u00e7\u00e3o ocorre no espa\u00e7o de consci\u00eancia, esse grande &#8220;m&#8221; imagin\u00e1rio, o fator determinante, \u00e9 uma massa de ideias. Cont\u00e9m nossas experi\u00eancias conscientes, nossos registros inconscientes, epis\u00f3dios reconstru\u00eddos na nossa hist\u00f3ria de vida e, portanto, a nossa autoimagem em desenvolvimento, o conte\u00fado do nosso sangue, bem como imagens e opini\u00f5es herdadas de nossos antepassados, ideias coletivas da nossa sociedade, e assim por diante. A soma de tudo isso nos d\u00e1 muito peso no espa\u00e7o das ideias. Tal cole\u00e7\u00e3o de imagens \u2013 o museu da Sra. X ou do Sr. Y &#8211; \u00e9 sustentada com energia emocional e pelo poder criativo do nosso pensamento.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<h3>Eternidade<\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\">Suponhamos que o nosso n\u00facleo, o ser eterno, queira expressar-se, manifestar-se. Em princ\u00edpio, s\u00f3 a identifica\u00e7\u00e3o precisa ser transferida do nosso \u201ceu\u201d imagin\u00e1rio para esse verdadeiro \u201ceu\u201d. Na pr\u00e1tica, come\u00e7a com a aceita\u00e7\u00e3o de que o n\u00facleo est\u00e1 l\u00e1 e \u00e9 mais importante do que qualquer outra coisa. Temos que acreditar nisso. Isso faz com que se inicie uma abertura em todo o sistema, o telhado do nosso museu deixa entrar a luz. Podemos ver a nossa cole\u00e7\u00e3o de imagens nessa luz, em admira\u00e7\u00e3o e em avers\u00e3o. Percebemos como nos identificamos com determinada sele\u00e7\u00e3o de obras no nosso museu. Com base na observa\u00e7\u00e3o, podemos questionar a identifica\u00e7\u00e3o e, se necess\u00e1rio, abandon\u00e1-la em autorrendi\u00e7\u00e3o ao nosso n\u00facleo. Entrega de n\u00f3s pr\u00f3prios a n\u00f3s pr\u00f3prios.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Podemos tamb\u00e9m aprender que acumular imagens \u00e9 in\u00fatil: traz muita energia ao museu e \u00e9 um caos que torna sua visualiza\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. H\u00e1 muito a aprender nesta desaprendizagem. Gradualmente, encontramo-nos com outra postura, adotamos nova atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida. Agora assuma que, a partir dessas descobertas, o nosso n\u00facleo, o ser da eternidade, queira expressar-se em n\u00f3s dessa maneira!<\/p>\n<h3>&nbsp;<\/h3>\n<h3>Refer\u00eancia<strong>:<\/strong><\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\">Este artigo foi publicado originalmente na Revista Pentagrama de 2019, n\u00ba 3.<\/p>\n","protected":false},"author":923,"featured_media":7109,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110120],"tags_english_":[],"class_list":["post-89977","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-zeitgeist-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/89977","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/923"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89977"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89977"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=89977"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=89977"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}