{"id":89435,"date":"2019-02-21T14:52:20","date_gmt":"2019-02-21T14:52:20","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/logon_article\/a-oracao-ao-tempo-de-caetano-veloso-e-as-arvores-sagradas\/"},"modified":"2019-02-21T14:52:20","modified_gmt":"2019-02-21T14:52:20","slug":"a-oracao-ao-tempo-de-caetano-veloso-e-as-arvores-sagradas","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/a-oracao-ao-tempo-de-caetano-veloso-e-as-arvores-sagradas\/","title":{"rendered":"A \u201cOra\u00e7\u00e3o ao Tempo\u201d de Caetano Veloso e as \u00e1rvores sagradas"},"content":{"rendered":"<p class=\"text-align-justify\">No Brasil, o culto religioso de origem africana chamado candombl\u00e9 utiliza uma \u00e1rvore, a gameleira branca, para&nbsp; simbolizar uma de suas divindades, o Iroko. Esta \u00e1rvore \u00e9 tida por m\u00edtica, primordial, e representa a longevidade, a durabilidade das coisas e o passar do tempo. A gameleira branca inspirou um dos maiores m\u00fasicos brasileiros da atualidade, Caetano Veloso, a compor uma de suas mais bonitas can\u00e7\u00f5es, \u201cOra\u00e7\u00e3o ao Tempo\u201d. Diz a cren\u00e7a do candombl\u00e9 que na copa dessa \u00e1rvore vivem as feiticeiras da floresta e atrav\u00e9s dela todas as divindades desceram \u00e0 Terra.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Na primeira estrofe, a m\u00fasica deixa claro que vai tratar de um pedido. E, como se fizesse uma invoca\u00e7\u00e3o ritual, o cantor repete 80 vezes a palavra \u201ctempo\u201d, 8 vezes em cada uma das 10 estrofes. O ouvinte \u00e9 conduzido \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de circularidade &#8211; como o tronco das \u00e1rvores &#8211; por uma m\u00fasica sem refr\u00e3o e com melodia e harmonia praticamente sem pontos de tens\u00e3o, como nas m\u00fasicas orientais. Na metade da can\u00e7\u00e3o, o pedido \u00e9 feito:<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Pe\u00e7o-te<strong> <\/strong>o prazer leg\u00edtimo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>E o movimento preciso<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Tempo tempo tempo tempo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Quando o tempo for prop\u00edcio<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Tempo tempo tempo tempo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>De modo que o meu esp\u00edrito<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Ganhe um brilho definido<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Tempo tempo tempo tempo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>E eu espalhe benef\u00edcios<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Tempo tempo tempo tempo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Qual seria o prazer leg\u00edtimo ansiado pelo cantor, que faria abrilhantar seu esp\u00edrito, permitindo-lhe distribuir benef\u00edcios, e poderia ser-lhe dado pelo tempo? A resposta \u00e9 mais simples do que podemos imaginar \u00e0 primeira vista.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">O m\u00fasico brasileiro n\u00e3o \u00e9 o primeiro nem o \u00fanico a se encantar, cantar e encontrar significados nas \u00e1rvores. Muitos mitos relacionam a hist\u00f3ria do Homem com \u00e1rvores, a exemplo da \u00e1rvore do Para\u00edso.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">No continente latino-americano encontramos a tradi\u00e7\u00e3o dos \u00edndios tupis. No livro <em>A Terra de Mil Povos<\/em>, de&nbsp; Kak\u00e1 Wer\u00e1, l\u00ea-se que&nbsp; \u201co Trov\u00e3o-ser, que nos habita quando cria, forma uma \u00e1rvore vibrat\u00f3ria, um campo energ\u00e9tico, um enredo interior\u201d. Esta \u00e1rvore interior \u00e9 a consci\u00eancia humana: ela estrutura cren\u00e7as e valores, vis\u00f5es de si mesmo e dos outros. Para esses \u00edndios a consci\u00eancia \u00e9 mais importante do que o tempo. Este \u00e9 respons\u00e1vel por ligar o ritmo com a a\u00e7\u00e3o e a ina\u00e7\u00e3o, coordenados pelo cora\u00e7\u00e3o. A \u00e1rvore interior de cada ser \u00e9 vivificada pela vibra\u00e7\u00e3o de seus pensamentos, sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">J\u00e1 no Edda &#8211; colet\u00e2nea de cantos escandinavos do s\u00e9culo XII &#8211; o freixo \u00e9 considerado a primeira \u00e1rvore da Terra, imagem da \u00e1rvore do para\u00edso e do sistema sagrado do fogo serpentino, que, na tradi\u00e7\u00e3o indiana, simboliza a energia criadora do ser humano. Como a \u00e1rvore foi derrubada, o homem perdeu sua divindade, tornando-se apenas uma sombra formada de mat\u00e9ria terrestre. No entanto, o tronco seco do fogo serpentino pode&nbsp; transformar-se na cruz da vit\u00f3ria pela endura, o processo que leva ao renascimento.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Essa linha de pensamento encontra-se em muitas outras cren\u00e7as e nela pode estar a explica\u00e7\u00e3o para o anseio do artista. Para realizar a endura e retornar ao estado divino que lhe traria o \u201cprazer leg\u00edtimo\u201d, ele precisaria da ajuda do tempo, pois religar-se com a semente divina que habita em seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 como ligar um interruptor. \u00c9 preciso encontrar o trajeto. Como \u00e1rvore vibracional, consciencional, que Caetano e todos os seres s\u00e3o, ele entoa um c\u00e2ntico de louvor e beleza ao tempo, visando a obter seu aux\u00edlio. Citando Kak\u00e1 Wer\u00e1, \u201cquanto mais beleza, gratid\u00e3o e louvor emanam da palavra, mais essa qualidade ressoa e se manifesta na natureza e no tempo-espa\u00e7o da vida\u201d. Caetano cantaria ao tempo pedindo tempo para que possa encontrar seu prazer leg\u00edtimo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Essa ideia pode ser expandida para a interpreta\u00e7\u00e3o da morte como o prazer leg\u00edtimo, mas n\u00e3o a morte do corpo, e sim a do velho homem para surgimento do novo. Feito o pedido,&nbsp; o artista finaliza seus versos projetando o dia em que ele tiver sa\u00eddo do c\u00edrculo do tempo:<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>E quando eu tiver sa\u00eddo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Para fora do teu c\u00edrculo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Tempo tempo tempo tempo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>N\u00e3o serei nem ter\u00e1s sido<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Tempo tempo tempo tempo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Ainda assim acredito<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Ser poss\u00edvel reunirmo-nos<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Tempo tempo tempo tempo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Num outro n\u00edvel de v\u00ednculo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Tempo tempo tempo tempo<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">A rela\u00e7\u00e3o atual do homem com o tempo o aprisiona, mais pelo seu pr\u00f3prio ponto de vista do que pela realidade desta misteriosa divindade. Por isso, a letra \u00e9 acalentadora ao remeter-nos para a possibilidade de homem e tempo encontrarem-se com outro tipo de v\u00ednculo, quem sabe a eternidade,&nbsp; mais livre do que o tempo contado nos rel\u00f3gios. Se sairmos do c\u00edrculo do tempo ser\u00e1 sempre a eternidade. Nada ter\u00e1 mudado. O deus Tup\u00e3, a flauta que ecoa o som universal, a m\u00fasica das esferas, a \u00e1rvore da vida.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Seria tudo isso o \u00f3bvio?<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4155,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110069],"tags_english_":[],"class_list":["post-89435","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-art-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/89435","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4155"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89435"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=89435"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=89435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}