{"id":89293,"date":"2018-11-23T23:48:12","date_gmt":"2018-11-23T23:48:12","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/logon_article\/os-ensinamentos-de-hermes-e-o-satori-zen-o-que-passa-e-o-que-permanece\/"},"modified":"2018-11-23T23:48:12","modified_gmt":"2018-11-23T23:48:12","slug":"os-ensinamentos-de-hermes-e-o-satori-zen-o-que-passa-e-o-que-permanece","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/os-ensinamentos-de-hermes-e-o-satori-zen-o-que-passa-e-o-que-permanece\/","title":{"rendered":"Os Ensinamentos de Hermes e o Satori Zen: o que passa e o que permanece"},"content":{"rendered":"<p class=\"text-align-justify\">H\u00e1 cerca de 2000 anos, os textos atribu\u00eddos ao s\u00e1bio Hermes Trismegisto foram escritos em Alexandria. Durante quase 1000 anos, esses textos ficaram perdidos para o Ocidente, tendo sido parcialmente recuperados durante o Renascimento, gra\u00e7as ao trabalho de Cosmo de Medici e Marsilio Ficino.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Esses textos, na verdade, d\u00e3o testemunho de uma tradi\u00e7\u00e3o esot\u00e9rica muito mais antiga, ligada aos antigos mist\u00e9rios gregos e eg\u00edpcios. O pr\u00f3prio nome de Hermes Trismegisto \u00e9 muitas vezes associado ao deus eg\u00edpcio Thot.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Atualmente a ideia a respeito da sabedoria herm\u00e9tica \u00e9 que seja algo estranho e ex\u00f3tico. Por\u00e9m, tal ensinamento tem muito a dizer a respeito do ser humano, em toda a sua complexidade. Seu foco central \u00e9 estimular em n\u00f3s a consci\u00eancia superior adormecida, aquela mesma consci\u00eancia que nos guiar\u00e1 nos passos de um caminho espiritual libertador.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Para nos aproximarmos deste ensinamento, gostar\u00edamos de estabelecer uma correla\u00e7\u00e3o entre os ensinamentos dos textos herm\u00e9ticos e os ensinamentos do Zen Budismo, no sentido de mostrar que o sustent\u00e1culo da vida e da sabedoria n\u00e3o conhece barreiras geogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Tendo surgido na China e ganhado for\u00e7a e forma no Jap\u00e3o, o Zen Budismo permeia a cultura de todo o extremo Oriente e, a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, tamb\u00e9m penetrou gradativamente no Ocidente. O objetivo central dos adeptos do Zen \u00e9 atingir o <em>Satori<\/em>, que teria sido a experi\u00eancia vivenciada por Gautama Buda quando da sua ilumina\u00e7\u00e3o. Tudo o que j\u00e1 se escreveu sobre o Satori refor\u00e7a sua condi\u00e7\u00e3o de inexplic\u00e1vel, indescrit\u00edvel, inintelig\u00edvel, o que equivale a dizer que ele n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Sendo assim, os que se interessam em saber mais sobre o Satori pela via discursiva podem contar apenas com os relatos dos mestres Zen que se dispuseram a falar sobre suas pr\u00f3prias experi\u00eancias. Um desses relatos pode ser encontrado no livro de Alan Watts, <em>O Esp\u00edrito do Zen<\/em>:<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">Quando olhei em volta, para cima e para baixo, todo o universo, com seus m\u00faltiplos objetos sensoriais, me pareceu completamente diferente; tudo o que antes era repulsivo, junto com a ignor\u00e2ncia e as paix\u00f5es, passou a ser visto como o simples fluir da minha natureza mais profunda, que em si mesma permanecia <em>brilhante, verdadeira e transparente<\/em>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Esse relato nos indica que o Satori \u00e9 a experi\u00eancia respons\u00e1vel por apresentar ao buscador sua \u201cnatureza mais profunda\u201d, o que algumas tradi\u00e7\u00f5es budistas concordam em chamar de natureza b\u00fadica. Aquilo que permanece em meio ao constante fluir da exist\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><strong>Hermes, a paisagem e a despaisagem<\/strong><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Quanto a Hermes Trismegisto, o \u201ctr\u00eas vezes grande\u201d, \u00e9 de pouca import\u00e2ncia saber se ele foi um mensageiro, v\u00e1rios, ou simplesmente um prot\u00f3tipo eterno do \u201cSer que \u00e9\u201d, que estamos a caminho de nos tornar. O fato \u00e9 que o <em>Corpus Hermeticum,<\/em> a <em>T\u00e1bua de Esmeralda <\/em>e <em>O castigo da alma<\/em>, obras atribu\u00eddas a ele, sobreviveram ao tempo e ao espa\u00e7o e passaram por in\u00fameras interpreta\u00e7\u00f5es at\u00e9 tocarem verdadeiramente nossas cabe\u00e7as e cora\u00e7\u00f5es e despertarem a reminisc\u00eancia de nosso verdadeiro Ser.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Assim como \u00e9 em cima, \u00e9 embaixo.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Assim como \u00e9 dentro, \u00e9 fora.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-center\"><em>Assim como \u00e9 no grande, \u00e9 no pequeno.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">A linguagem serve para expressar, mas tamb\u00e9m acaba por restringir conceitos. \u00c9 uma faca de dois gumes, que tanto pode liberar ideias profundas como aprision\u00e1-las, cristalizando-as para sempre.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Em rela\u00e7\u00e3o aos textos sagrados de todos os tempos, podemos dizer que nossas interpreta\u00e7\u00f5es assemelham-se \u00e0 experi\u00eancia de um jovem monge em seu discipulado. Conforme um ensinamento Zen, para o jovem monge que inicia seus estudos, as montanhas s\u00e3o montanhas, as \u00e1rvores s\u00e3o \u00e1rvores e os homens s\u00e3o homens. Depois, as montanhas deixam de ser montanhas, as \u00e1rvores deixam de ser \u00e1rvores e os homens deixam de ser homens. Quando ele alcan\u00e7a o Satori<em>,<\/em> as montanhas voltam a ser montanhas, as \u00e1rvores voltam a ser \u00e1rvores e os homens voltam a ser homens. Isso nos esclarece a respeito da chamada consci\u00eancia espiritual que, em ess\u00eancia, mostra a realidade das coisas como elas s\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Muitos que entraram em contato com os textos herm\u00e9ticos irrefletidamente consideraram que eles poderiam ser \u00fateis para se dominar e colecionar conhecimentos espa\u00e7otemporais ligados ao cosmo, ao macrocosmo e ao microcosmo. No entanto, este nunca foi o seu prop\u00f3sito, que \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia humana de suas ilus\u00f5es. Colecionar conhecimentos n\u00e3o nos levar\u00e1 a essa <em>liberta\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">A T\u00e1bua de Esmeralda, por exemplo, relaciona o que \u201cest\u00e1 em cima\u201d com o que est\u00e1 \u201cembaixo\u201d, mostrando a unidade de toda a manifesta\u00e7\u00e3o. No entanto, seguindo uma interpreta\u00e7\u00e3o m\u00edstica question\u00e1vel desses textos, continuamos a contrapor alto e baixo, dentro e fora, grande e pequeno. Em uma leitura grandiloquente, podemos mesmo nos perder em uma supervaloriza\u00e7\u00e3o de nosso ego. Ao nos \u201cligarmos\u201d negativamente com a divindade, podemos nos sentir grandes, viver uma vida elevada e interiorizada, \u201cl\u00e1 em cima\u201d e \u201cl\u00e1 dentro\u201d, e deixamos que o mundo \u201cl\u00e1 fora\u201d seja \u201cpequeno\u201d e \u201cbaixo\u201d. Ou podemos tender para uma m\u00edstica masoquista, cheia de preconceitos herdados de tradi\u00e7\u00f5es desequilibradamente religiosas, a partir da desvaloriza\u00e7\u00e3o de nossa condi\u00e7\u00e3o humana (somos os \u201cpequenos\u201d, estamos \u201caqui embaixo\u201d e sempre \u201cpor fora\u201d). Nada mais equivocado!<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Se deixarmos que os ensinamentos herm\u00e9ticos nos toquem, sem pensamentos, sentimentos ou demais rea\u00e7\u00f5es baseadas na cultura de nosso pa\u00eds ou \u00e9poca, perceberemos que a advert\u00eancia de Hermes \u00e9 muito clara, sem compara\u00e7\u00f5es, divaga\u00e7\u00f5es ou met\u00e1foras. O que ele nos aponta \u00e9 que:<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\"><em>Tanto faz estar em cima, embaixo, dentro, fora, ser grande ou pequeno. O que importa \u00e9 o Todo e a sua\/nossa ess\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">O que o texto nos aponta \u00e9 que a divindade, o Ser Absoluto, desconstr\u00f3i completamente as barreiras que nos cristalizam, nos aprisionam e criam lentes que distorcem a Verdade Absoluta. Ele nos tira da paisagem! Assim, sem contexto, sem cultura pr\u00e9via, sem qualquer conhecimento adquirido, deixamos de ser buscadores para simplesmente <em>sermos<\/em>.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Vemos, assim, que a compreens\u00e3o profunda dos ensinamentos de Hermes nos leva, tal como o Satori do Zen, a \u201cacessar\u201d nossa real natureza, que permanece \u201cbrilhante, verdadeira e transparente\u201d, mesmo diante da aparente mutabilidade de tudo. <em>Brilhante<\/em>, porque preenche nossa vis\u00e3o interior e se destaca invencivelmente dentre todos os objetos de nossos pensamentos. <em>Verdadeira<\/em>, porque n\u00e3o chega at\u00e9 n\u00f3s por meio de pontes feitas de palavras ou insinua\u00e7\u00f5es, antes, desconstr\u00f3i todas as pontes que ligavam nosso ser fragmentado, fazendo-nos ver que a integralidade da exist\u00eancia \u00e9 una com a Verdade. <em>Transparente<\/em>, porque fixando nossa vis\u00e3o nela podemos enxergar tudo o que existe, pois sua realidade n\u00e3o obscurece a realidade de nenhum outro ser.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Quando constatarmos que nossa localiza\u00e7\u00e3o espa\u00e7otemporal \u00e9 apenas apar\u00eancia, entenderemos que somente pode haver igualdade ou proporcionalidade a partir da eternidade, da ess\u00eancia, da unidade com o Todo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o nos preocuparemos em conceituar at\u00e9 onde vai a divindade e at\u00e9 onde vamos n\u00f3s. Afinal, quando chegamos a esse ponto, n\u00f3s e a divindade voltamos a ser Um!<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3737,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110082],"tags_english_":[],"class_list":["post-89293","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-livingpast-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/89293","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3737"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89293"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=89293"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=89293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}