{"id":89128,"date":"2018-07-24T19:39:10","date_gmt":"2018-07-24T19:39:10","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/logon_article\/peabiru-do-coracao-ao-oceano\/"},"modified":"2018-07-24T19:39:10","modified_gmt":"2018-07-24T19:39:10","slug":"peabiru-do-coracao-ao-oceano","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/peabiru-do-coracao-ao-oceano\/","title":{"rendered":"Peabiru, do cora\u00e7\u00e3o ao oceano"},"content":{"rendered":"<p class=\"text-align-justify\">Entre o oceano Pac\u00edfico e o Atl\u00e2ntico encontra-se uma enorme massa de terra com muitos habitantes. As pessoas que hoje caminham sobre esse continente podem apenas conceber a enorme extens\u00e3o que tem a terra sob seus p\u00e9s. Se desejam chegar a um ponto mais afastado do continente, \u00e9 poss\u00edvel faz\u00ea-lo por meio de autom\u00f3veis e estradas que foram planejadas justamente para isso. Se desejam sair do continente para chegar a outro, podem faz\u00ea-lo por meio de navios ou avi\u00f5es. Tudo isso \u00e9 bastante natural. O que seria estranho \u00e9 considerar o oceano como ponto de chegada, e n\u00e3o como mero meio para alcan\u00e7ar outro continente. Com efeito, pessoas n\u00e3o s\u00e3o peixes: n\u00e3o sobreviveriam no fundo das \u00e1guas. Precisamos de um lugar onde firmar os p\u00e9s. Provavelmente, \u00e9 por isso que encaramos o oceano como aquilo que separa os continentes, raramente notando o fato \u00f3bvio de que os continentes tamb\u00e9m separam o oceano.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Os habitantes ancestrais do continente americano, tendo igual interesse em explorar o territ\u00f3rio, mas n\u00e3o dispondo de autom\u00f3veis que tornassem necess\u00e1ria a abertura de estradas, utilizavam trilhas abertas no interior da floresta, algumas abertas por eles mesmos, outras de origem desconhecida. Entre os caminhos por cuja abertura n\u00e3o se sabia quem era o respons\u00e1vel, estava um que impressiona por sua extens\u00e3o e significado espiritual: o <em>Peabiru<\/em>, que atravessava boa parte da Am\u00e9rica do Sul. De tradu\u00e7\u00e3o controversa, a denomina\u00e7\u00e3o <em>Peabiru<\/em> \u00e9 mais frequentemente entendida como \u201cCaminho de gramado amassado\u201d ou \u201cCaminho das Montanhas do Sol\u201d. Considerando os vest\u00edgios que existem hoje, deduz-se que o <em>Peabiru<\/em> come\u00e7ava no litoral sul do Brasil, onde hoje \u00e9 o Estado de Santa Catarina, passava pelos Estados de S\u00e3o Paulo e Paran\u00e1, seguia pelo Paraguai, Bol\u00edvia, Peru e terminava no litoral chileno. Estima-se tamb\u00e9m que ele foi aberto no sentido leste-oeste e sabe-se que era tido como sagrado por muitos povos nativos, incluindo os guaranis, a maior popula\u00e7\u00e3o nativa do Brasil na atualidade.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Essa \u00faltima informa\u00e7\u00e3o indica que o <em>Peabiru<\/em> n\u00e3o se limitava a uma rota de com\u00e9rcio ou a um meio de manter a comunica\u00e7\u00e3o entre os povos. De fato, Rosana Bond, autora do livro <em>Hist\u00f3ria do Caminho de Peabiru<\/em>, acredita que o caminho se relacione com a rota que o sol faz no c\u00e9u. Talvez a esperan\u00e7a de chegar ao lugar onde o sol desaparecia tenha estimulado os nativos, em diferentes locais da Am\u00e9rica do Sul, a abrir um caminho que levasse at\u00e9 l\u00e1. Ao longo dos s\u00e9culos, a uni\u00e3o e acabamento de pequenos caminhos em diferentes trechos do continente pode ter dado forma ao famoso <em>Peabiru<\/em>. Uma linha sobre a terra ligando duas partes do imenso oceano. Certas inscri\u00e7\u00f5es deixadas em algumas partes do caminho tamb\u00e9m ajudam a apreciar o seu significado espiritual. Elas apontavam para os andarilhos a dire\u00e7\u00e3o de <em>Iwi Mara\u00ea<\/em>, a Terra sem Mal.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Para os que percorreram o <em>Peabiru<\/em> imbu\u00eddos de sentimento m\u00edstico, buscando <em>Iwi Mara\u00ea<\/em> ou o ninho do sol, uma constata\u00e7\u00e3o impactante deve ter se imposto a seus esp\u00edritos: o fim da viagem n\u00e3o \u00e9 a terra firme. Deixando o oceano, chegaram ao oceano. A \u00e1gua ainda os separava do astro solar e nada parecido com uma terra sem mal tinha sido encontrado. Talvez por isso, o <em>Peabiru<\/em> seja mais bem entendido como met\u00e1fora para uma outra coisa, s\u00edmbolo de um caminho interior. Essa conclus\u00e3o pode ser tirada dos ensinamentos dos povos guarani, para quem, como j\u00e1 foi notado, o <em>Peabiru<\/em> era um caminho sagrado, devido ao fato de ele acompanhar o movimento do sol.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Um caminho ligando dois oceanos, que na verdade s\u00e3o um s\u00f3. O caminho que leva \u00e0 terra sem mal, cuja localiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se encontra em nenhum mapa. Sobre esta misteriosa terra, a revista <em>Ecos da Alma Brasileira<\/em>, do Instituto Civitas Solis, declara, baseada nas tradi\u00e7\u00f5es espirituais da humanidade:<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">[&#8230;] essa Terra sem Males n\u00e3o se reduz \u00e0 concep\u00e7\u00e3o espacial, a um local paradis\u00edaco, mas \u00e9 principalmente um estado de ser. Por isso, tamb\u00e9m se diz que \u00e9 poss\u00edvel atingi-la tornando o corpo mais leve, sutil. [&#8230;] era poss\u00edvel a qualquer \u00edndio se tornar semelhante aos deuses, um homem divino, superando as limita\u00e7\u00f5es culturais e atingindo uma condi\u00e7\u00e3o transcendente.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Sobre o oceano que circunda os continentes, que \u00e9 ponto de partida e de chegada do <em>Peabiru<\/em>, \u00e9 not\u00e1vel como ele sintetiza a jornada espiritual do ser humano: o seu fim deve ser alcan\u00e7ar as origens. Frequentemente usado como s\u00edmbolo de plenitude (oceano da vida, oceano de miseric\u00f3rdia), o oceano constitui o destino dos rios, e \u00e9 como que um todo formado por incont\u00e1veis gotas de \u00e1gua, tal como se diz ser o caso de Deus com respeito a suas infinitas criaturas.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">A contempla\u00e7\u00e3o de coisas grandiosas \u00e9 uma das aberturas por onde desperta no ser humano o sentimento do sublime. A imensid\u00e3o do oceano, a imensid\u00e3o das florestas, a imensid\u00e3o do c\u00e9u, do sol e da lua &#8211; eram muitas as fontes do sublime dispon\u00edveis para o nativo sul-americano. Hoje, apesar de o <em>Peabiru<\/em> n\u00e3o existir como dado concreto, pois restam apenas vest\u00edgios de certos trechos do caminho, a imagem que concebemos dele \u00e9 suficientemente grandiosa para despertar em n\u00f3s o sentimento do sublime, de maneira a permitir que o caminho e seu ideal se projetem em nossas consci\u00eancias.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">O que o atual habitante deste continente compartilha com seus ancestrais? Em certo sentido, eles compartilham a terra e a hist\u00f3ria, mas em grau t\u00e3o diminuto que n\u00e3o se pode falar de uma identidade comum entre ambos tendo como base apenas esses fatores. Contudo, a ideia de uma identidade comum a ambos \u00e9 t\u00e3o irresist\u00edvel que somos for\u00e7ados a dar um passo adiante e arriscar: eles compartilham um anseio, oriundo do n\u00facleo da pr\u00f3pria alma e dirigido \u00e0 fonte de todo ser; eles compartilham um destino, expresso pela imagem do sol pairando sobre o oceano; eles compartilham um caminho, tra\u00e7ado e batido na pr\u00f3pria mat\u00e9ria, mas tamb\u00e9m inscrito em seus cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2845,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110082],"tags_english_":[],"class_list":["post-89128","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-livingpast-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/89128","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2845"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89128"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89128"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=89128"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=89128"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}