{"id":88951,"date":"2018-03-16T16:10:48","date_gmt":"2018-03-16T16:10:48","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/logon_article\/tradicoes-africanas-e-sincretismo-religioso-introducao-ao-mvett\/"},"modified":"2018-03-16T16:10:48","modified_gmt":"2018-03-16T16:10:48","slug":"tradicoes-africanas-e-sincretismo-religioso-introducao-ao-mvett","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/tradicoes-africanas-e-sincretismo-religioso-introducao-ao-mvett\/","title":{"rendered":"Tradi\u00e7\u00f5es africanas e sincretismo religioso: Introdu\u00e7\u00e3o ao Mvett"},"content":{"rendered":"<p class=\"text-align-justify\">A ideia do sincretismo religioso, tal como queremos abord\u00e1-la, s\u00f3 fica clara se desconsiderarmos a vis\u00e3o atual, popularizada ao longo de s\u00e9culos pela tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Sabendo que a inicia\u00e7\u00e3o \u00e9 a base que regulou e continua a regular a maioria das sociedades africanas, a quest\u00e3o \u00e9: qual foi a doutrina substancial dessas tradi\u00e7\u00f5es inici\u00e1ticas? Apenas um estudo n\u00e3o complacente de seus ensinamentos secretos e sagrados pode ajudar a estabelecer um elo entre sua abordagem religiosa e os fundamentos do pensamento crist\u00e3o ortodoxo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Os etimologistas citam duas fontes da palavra &#8220;Religi\u00e3o&#8221;: <em>relegere<\/em> (coletar, reunir) e <em>religare<\/em> (vincular, ligar).<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">O Antigo Testamento menciona uma ruptura entre Ad\u00e3o, o homem primordial, e seu primeiro lar, o \u00c9den. O Novo Testamento, por seu turno, estabelece o plano de reden\u00e7\u00e3o, reconvers\u00e3o, o retorno ao lar, plano cujo iniciador \u00e9 Cristo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">A estrutura proposta por esta alegoria do Antigo e do Novo Testamento&nbsp;n\u00e3o \u00e9 exclusiva da B\u00edblia. V\u00e1rios relatos descrevem essa situa\u00e7\u00e3o, apresentando o homem, em sua condi\u00e7\u00e3o atual, como uma entidade isolada de sua matriz original. Al\u00e9m disso, se partirmos dessa ruptura, e se tomarmos a religi\u00e3o como previamente definida, ou seja, um conjunto de li\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas que permitem ao Homem (Ad\u00e3o, no caso da B\u00edblia) se conectar a esse <em>habitat<\/em> hoje perdido (\u00c9den), a religi\u00e3o poderia ser considerada e definida como um Caminho de inicia\u00e7\u00e3o, o&nbsp;conhecimento e&nbsp;implementa\u00e7\u00e3o desse caminho, em suma, uma Gnose, um renascimento. Assim, as no\u00e7\u00f5es de inicia\u00e7\u00e3o e religi\u00e3o estariam integradas.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Nesse sentido, existe entre as &#8220;tradi\u00e7\u00f5es inici\u00e1ticas africanas&#8221; uma que se alinha ao seguinte diagrama libertador: Separa\u00e7\u00e3o do lar primordial (Ad\u00e3o expulso do para\u00edso, de acordo com os termos b\u00edblicos) e depois o processo de <em>Religare<\/em>, que possibilita ao homem expulso do para\u00edso retornar&nbsp;a ele.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">A referida tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 o Mvett, que passamos a analisar.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Defini\u00e7\u00f5es de Mvett<\/strong><\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\">Definir o Mvett imediatamente nos coloca diante de um problema lingu\u00edstico, uma vez que a \u00e1rea geogr\u00e1fica em que ele nasceu e floresceu (Camar\u00f5es, Gab\u00e3o, Guin\u00e9 Equatorial e parte do Congo-Brazzaville) compartilha mais de tr\u00eas centenas de idiomas, incluindo o Fang, o Ntumu e o Bulu. Essas tr\u00eas l\u00ednguas irm\u00e3s s\u00e3o aquelas usadas nas narrativas dos \u00e9picos de Mvett. O dom\u00ednio absoluto de seu campo onom\u00e1stico, metaf\u00f3rico, sem\u00e2ntico e poliss\u00eamico \u00e9 necess\u00e1rio para se mergulhar no paradigma conceitual de Mvett.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">O Mvett como narra\u00e7\u00e3o \u00e9, antes de tudo, um \u00e9pico. E como \u00e9pico, inclui tr\u00eas tipos:<\/p>\n<ol>\n<li>\n<p class=\"text-align-justify\">O <em>Mvettbibone<\/em>, Mvett dos amantes, que exp\u00f5e as anedotas conjugais, as escapadas libidinosas do jogador de Mvett ou de uma personagem fict\u00edcia.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"text-align-justify\">O <em>Mvettengubi<\/em> ou <em>bingubi<\/em>, um g\u00eanero menor que lida com can\u00e7\u00f5es de \u00f3pera, f\u00e1bulas, contos hist\u00f3ricos e hist\u00f3rias infantis.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"text-align-justify\">O <em>Mvett Ekang<\/em>, grande g\u00eanero, tamb\u00e9m chamado <em>Mvettbeyem<\/em> ou <em>Mvett <\/em><em>\u201c<\/em><em>daqueles que sabem\u201d<\/em>. Este Mvett conta a hist\u00f3ria de dois povos. Um, mortal (o OK\u00dc), que tenta roubar do outro, imortal (o EKANG), o segredo da imortalidade.<\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p class=\"text-align-justify\">\u00c9 sobre este \u00faltimo Mvett que vamos nos concentrar.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>O Mvett Ekang, luta \u00e9pica<\/strong><\/h3>\n<p class=\"text-align-justify\">O enredo tr\u00e1gico entre o Ekang e o Oku funda o \u00e9pico de <em>Mvett Ekang<\/em>. Al\u00e9m disso, para que este seja acess\u00edvel, \u00e9 requerido que o p\u00fablico informado tenha algum conhecimento da l\u00edngua sagrada e seus c\u00f3digos, sem os quais a apreens\u00e3o dos mist\u00e9rios Ekang poderia ser inviabilizada. Deve ser dito que <em>Mvett-Ekang<\/em> compartilha este primeiro tra\u00e7o com a B\u00edblia, o Mahabharata e o Livro do Dia, tamb\u00e9m chamado Livro Eg\u00edpcio dos Mortos.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Em si mesmo, o termo <em>Mvett<\/em> abrange as express\u00f5es <em>Ave&#8217;e<\/em> (acordado), <em>Avet<\/em> (ascens\u00e3o, estiramento para cima) e&nbsp;<em>Mvebe<\/em> (respira\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Gregory Biyogo (2004)<fn value=\"*\">BIYOGO Gr\u00e9goire, Enciclop\u00e9dia de Mvett, Paris, Ed Menaibuc, 2004, P. 124.<\/fn>&nbsp;afirma que o&nbsp;Mvett &#8220;\u00e9 perfeito&nbsp;do ponto de vista do conte\u00fado, recusando finitude e incompletude, toda a limita\u00e7\u00e3o original, qualquer morte (tanto a do corpo como a do esp\u00edrito). O Mvett recusa a morte. Ele \u00e9 AQUILO que \u00e9 conquistado pelo desejo de crescer, de se transformar quantitativa e qualitativamente. \u00c9 o impulso em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, \u00e0 eternidade, \u00e0 abertura para o absoluto, para Eyo&#8217;o. O Mvett quer imitar Eyo&#8217;o no ato inaugural da cria\u00e7\u00e3o pela extens\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o, na repeti\u00e7\u00e3o da eternidade, na obra de arte.\u201d<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Se o termo <em>Ekang<\/em>, na express\u00e3o <em>Mvett-Ekang<\/em>, significa imortal, seu campo isot\u00f3pico pode fornecer uma rede de significados, cujo sentido remete para a ideia de uma ra\u00e7a singular, um ideal, um prot\u00f3tipo. <em>Ekanga<\/em> tamb\u00e9m significa ponte, <em>Nkang<\/em> significa raiz, e <em>Ekang<\/em>, Imagem, escrita. No entanto, no \u00e9pico, o termo <em>Ekang<\/em> refere-se ao povo dos imortais que se op\u00f5em \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es dos mortais de Ok\u00fc.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Quem s\u00e3o os Ok\u00fc? O termo <em>Ok\u00fc<\/em> \u00e9 composto do radical <em>K\u00fc<\/em> ou <em>Kui<\/em>, que significa fora.<em> K\u00fc<\/em> ou <em>Kui<\/em> tamb\u00e9m podem ser declinados em <em>Ku<\/em>, cair, ou <em>Nkua<\/em> ou <em>Nkwa<\/em> &#8211; aquele que caiu.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Dissemos acima que o <em>Mvett-Ekang<\/em> conta a hist\u00f3ria de um povo mortal, Oku (lan\u00e7ado, ca\u00eddo), que deseja roubar o segredo da imortalidade cuidadosamente guardado pelos Ekang, imortais. Ficamos imaginando de onde os mortais Ok\u00fc teriam &#8220;sa\u00eddo ou ca\u00eddo&#8221; para serem constrangidos a mendigar o segredo da Imortalidade para os Ekang (raiz racial, imagem racial, ponte racial). Diante disso, \u00e9 f\u00e1cil tra\u00e7ar paralelos com express\u00f5es como &#8220;portador da imagem&#8221;, &#8220;ra\u00e7a raiz&#8221; ou &#8220;ma\u00e7ons e construtores&#8221;, bem conhecidas no cristianismo gn\u00f3stico.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Mais aned\u00f3tico \u00e9 o personagem <em>Mebegue Me Nkwa<\/em>, que aparece na escala gen\u00e9tica dos Mvett. <em>Mebegue<\/em> significa literalmente &#8220;eu uso&#8221; ou o fato de usar ou &#8220;aquele que usa&#8221;. Ao confrontar Ekang e Ok\u00fc, surge a ideia de uma dualidade no sentido ontol\u00f3gico. Em outras palavras, o conflito entre Ekang e Ok\u00fc ocorre em um campo de batalha existente no interior de&nbsp;um certo &#8220;Mebegue&#8221;, que ser\u00e1 abordado mais adiante. O confronto entre Ekang e Oku n\u00e3o se refere apenas \u00e0 ideia de dois campos opostos, mas \u00e0 ideia de um homem, um Ekang &#8211; <em>Mebegue &#8211; Me &#8211; Nkwa<\/em>, transportando duas naturezas diametralmente opostas dentro do pr\u00f3prio peito: um microcosmo em que um imortal e um mortal lutam.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">Se nosso objetivo \u00e9 apresentar o Mvett como Caminho, Conhecimento e Gnose, \u00e9 necess\u00e1rio ampliar o escopo da an\u00e1lise. Pensar o Mvett como um Beti (Fang, Tumu, Bulu) tamb\u00e9m ser\u00e1 fundamental, inserindo-o no Ciclo Migrat\u00f3rio deste \u00faltimo com as fases:<\/p>\n<ul>\n<li>\n<p class=\"text-align-justify\">Amata (migra\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"text-align-justify\">Odjambogha (a \u00e1rvore ou o obst\u00e1culo)<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p class=\"text-align-justify\">Coma d&#8217;OYONO Ada Ngono ou revela\u00e7\u00e3o de Mvett.<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p class=\"text-align-justify\">O pr\u00f3ximo artigo desta s\u00e9rie abordar\u00e1 a G\u00eanesis de acordo com o Mvett ou Mist\u00e9rio de OYONO ADA NGONO. Esta apresenta\u00e7\u00e3o, para ser sucinta, reduzir\u00e1 os dois primeiros pontos para melhor focar no \u00faltimo.<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"text-align-justify\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":922,"featured_media":2806,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110082],"tags_english_":[],"class_list":["post-88951","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-livingpast-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/88951","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/922"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2806"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88951"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88951"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=88951"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=88951"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}