{"id":129855,"date":"2026-09-14T13:07:01","date_gmt":"2026-09-14T13:07:01","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/?post_type=logon_article&#038;p=129855"},"modified":"2026-09-14T13:07:01","modified_gmt":"2026-09-14T13:07:01","slug":"solidao-um-relato-pessoal","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/solidao-um-relato-pessoal\/","title":{"rendered":"Solid\u00e3o &#8211; um relato pessoal"},"content":{"rendered":"<p>Sentir-se ou estar sozinho \u00e9 desagrad\u00e1vel para muitas pessoas, mas n\u00e3o para mim. Sinto-me confort\u00e1vel sozinho. N\u00e3o estar com pessoas pode parecer antinatural, mas eu me senti realmente confort\u00e1vel durante o per\u00edodo da pandemia. Isso \u00e9 estranho? Deve haver algo de errado comigo.Minha esposa diz que tenho medo de me relacionar e de me abrir.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o de me sentir mais confort\u00e1vel sozinho do que com pessoas pode ser porque fui muito magoado na minha juventude e tamb\u00e9m na fase adulta. Eu era daquele tipo de pessoa que est\u00e1 sempre \u00e0 margem, fazia parte do grupo dos perdedores, dos que n\u00e3o valem nada \u2014 pelo menos na opini\u00e3o dos outros. Ent\u00e3o, isolei-me e tentei a minha sorte na solid\u00e3o. Sem contato, n\u00e3o h\u00e1 risco de me magoar. O cervo ferido foge para a floresta densa para morrer.<\/p>\n<p>Durante quase 20 anos, \u00e0s vezes no ver\u00e3o e outras vezes no inverno, eu fazia caminhadas na Lap\u00f4nia, em meio \u00e0 natureza selvagem, sem trilhas, por p\u00e2ntanos e florestas densas, sem cabanas. Telefones celulares n\u00e3o funcionam l\u00e1. Para deixar minha esposa mais tranquila, eu carregava um transmissor de chamada de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>Em nenhum momento me senti sozinho ali. Tinha uma sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar, de estar em casa. Eu n\u00e3o era um estranho naquele ambiente. N\u00e3o havia ningu\u00e9m em um raio de 10 quil\u00f4metros. Se eu ca\u00edsse em um riacho e batesse a cabe\u00e7a numa pedra, morreria. Um dia encontrei uma ursa com seu filhote a uns 15 metros de dist\u00e2ncia. Mesmo assim, me senti em casa. Raramente tive medo.<\/p>\n<p>Os esot\u00e9ricos diriam: \u201cem outra encarna\u00e7\u00e3o voc\u00ea viveu e foi feliz l\u00e1, e por isso se lembra disso agora\u201d. Honestamente, acho irrelevante entender o porqu\u00ea. Estou apenas aqui, vivendo o presente. O que conta \u00e9 o agora, e \u00e9 assim que as coisas s\u00e3o. Sei que tudo o que precisa ser resolvido sempre me ser\u00e1 mostrado enquanto for necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o da Lap\u00f4nia onde eu fiquei \u00e9 pobre em est\u00edmulos f\u00edsicos, mesmo no ver\u00e3o, quando o que vemos s\u00e3o lagos, p\u00e2ntanos, mosquitos, \u00e1rvores, pedras, colinas, montanhas e campos de neve. J\u00e1 no inverno, h\u00e1 neve por toda parte.<\/p>\n<p>No primeiro dia, internamente eu ainda n\u00e3o tinha chegado; no segundo, percebi que estava na Lap\u00f4nia; no terceiro dia, tudo se tornou mon\u00f3tono e, no quarto dia, surgiram pensamentos e sentimentos que antes n\u00e3o tinham lugar. Percebi minha dor, meu sofrimento. Caminhei pela floresta chorando.Isso se repetiu no quinto dia. No sexto, tudo o que precisava sair, saiu. Ent\u00e3o, fiquei calmo, relaxado e desapegado. Foi uma verdadeira catarse.<\/p>\n<p>Durante minhas caminhadas, a experi\u00eancia foi se intensificando. Tudo era branco. Havia neve, vento, frio e uma neblina t\u00e3o densa que eu s\u00f3 tinha visibilidade de um metro. O sil\u00eancio era absoluto, dia e noite.S\u00f3 o estalar do gelo nos lagos e rios congelados quebrava o sil\u00eancio. O ar era frio e puro. Tudo era menos estimulante. Devido \u00e0s longas noites, a jornada interior aprofundava-se. A temperatura chegou a menos 35\u00b0C na barraca.<\/p>\n<p>Noites antes, o c\u00e9u estivera absolutamente deslumbrante, repleto de auroras boreais. O c\u00e9u se ilumina na escurid\u00e3o, assim como a consci\u00eancia obscurecida pode se tornar luminosa. A luz brilha na mais profunda escurid\u00e3o. Ent\u00e3o percebi que, mesmo sozinho, nunca me sentia solit\u00e1rio. Nunca estive verdadeiramente s\u00f3.<\/p>\n<p>Alguns anos mais tarde, percebi que a motiva\u00e7\u00e3o para essas aventuras pode ter vindo da minha dificuldade de me relacionar, mas, no fim das contas, foi o anseio por paz, tranquilidade e imers\u00e3o no sil\u00eancio que falou muito, muito suavemente.<\/p>\n<p>Na solid\u00e3o, \u00e9 muito mais f\u00e1cil ouvir esse sil\u00eancio do que no ru\u00eddo da cidade e convivendo com outras pessoas. A li\u00e7\u00e3o foi reconhecer que tudo est\u00e1 dentro de n\u00f3s e que tudo o que \u00e9 importante est\u00e1 presente em cada momento da vida. Pode, portanto, ser reconhecido. Apenas nossas imagens mentais, a confus\u00e3o de sentimentos e o caos de desejos se acumulam como uma toalha grande, pesada e molhada sobre a alma, sufocando-a.<\/p>\n<p>Se quisermos \u201couvir\u201d o sil\u00eancio da alma, \u00e9 mais f\u00e1cil faz\u00ea-lo no sil\u00eancio exterior, na solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando fazemos algo exteriormente e tamb\u00e9m lhe damos um significado interior, um efeito \u00e9 gerado em n\u00f3s. Um exemplo disso vem de quando limpamos algo palp\u00e1vel e sentimos um al\u00edvio emocional, como se a limpeza externa \u2018lavasse a alma&#8217;. O ato de caminhar significa percorrer uma paisagem, mas quem experimenta esse exerc\u00edcio sabe que \u00e9, essencialmente, um trajeto por caminhos interiores.<\/p>\n<p>Da mesma forma que descobrimos novos lugares no exterior, podemos descobrir os pontos cegos de nossa alma.<\/p>\n<p>Podemos descobrir, por exemplo, que a beleza exterior pode nos alegrar, mas a resolu\u00e7\u00e3o de um problema interior nos alegra muito mais.<\/p>\n<p>Olhando para nosso interior, podemos perceber que estamos caminhando em dire\u00e7\u00e3o a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Neste contexto, cada pessoa tem seu pr\u00f3prio caminho, e ningu\u00e9m precisa vagar sozinho para se encontrar.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 trilhar seu pr\u00f3prio e \u00fanico caminho, pois \u00e9 para ser percorrido que o caminho se p\u00f5e.<\/p>\n","protected":false},"author":609,"featured_media":111679,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110108],"tags_english_":[],"class_list":["post-129855","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-spiritsoul-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/129855","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/609"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/111679"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=129855"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=129855"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=129855"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=129855"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}