{"id":123939,"date":"2025-12-19T14:52:41","date_gmt":"2025-12-19T14:52:41","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/?post_type=logon_article&#038;p=123939"},"modified":"2025-12-19T14:52:41","modified_gmt":"2025-12-19T14:52:41","slug":"o-estranhamento-como-guia","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/o-estranhamento-como-guia\/","title":{"rendered":"O estranhamento como guia"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00f3s, humanos, somos basicamente estranhos, pois n\u00e3o conhecemos a n\u00f3s mesmos.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Qualquer pessoa que viva hoje em um pa\u00eds desenvolvido est\u00e1, quase certamente, vivendo uma vida alienada, pois nossa consci\u00eancia se separou de muitos contextos naturais sem que tenhamos nos tornado independentes deles. Os aspectos da aliena\u00e7\u00e3o incluem ter empregos altamente setorizados, viver em ambientes praticamente artificiais e, por fim, a crescente digitaliza\u00e7\u00e3o da vida cotidiana. Normalmente vemos apenas partes do todo e experimentamos uma imensa acelera\u00e7\u00e3o de nossas vidas como resultado do progresso \u2013 n\u00e3o apenas no transporte ou nos processos de fabrica\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m por meio da incessante mudan\u00e7a nas estruturas sociais que nos tiram muitas das seguran\u00e7as que t\u00ednhamos, as quais, ao menos nos davam a sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Qual \u00e9 o nosso lugar na vida? Com que frequ\u00eancia interagimos com coisas que crescem naturalmente, surgiram de nossas mentes ou n\u00e3o vieram de linhas industriais? N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que nossa autorrealiza\u00e7\u00e3o como criadores do <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">ambiente<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> em que estamos traz consigo um grande grau de aliena\u00e7\u00e3o. Nosso planeta, incluindo n\u00f3s como seus habitantes, foi reduzido a um fen\u00f4meno marginal em nossa consci\u00eancia. Nossos dias est\u00e3o preenchidos com o desenvolvimento destes dispositivos artificiais, pequenos e tecnol\u00f3gicos, e com o usufruto de seus \u201cbenef\u00edcios\u201d, como se esse fosse\u00a0 o prop\u00f3sito da vida humana.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Podemos ser cr\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento e nomear, com raz\u00e3o, os sofrimentos psicol\u00f3gicos que os acompanham.[1] Mas, e se esse desenvolvimento for tanto um desvio quanto um caminho para o despertar, que a longo prazo conduzir\u00e1 o homem natural ao homem espiritual?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu experimento o mundo e a mim mesmo como um processo de experi\u00eancias ambivalentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nada do que eu possa ser ou fazer no mundo responder\u00e1 adequadamente \u00e0 pergunta: quem sou eu? Ela toca uma escurid\u00e3o que n\u00e3o pode ser medida ou explorada por um indiv\u00edduo moderno. No entanto, sinto que posso, devo e tenho permiss\u00e3o para desenvolver minhas capacidades, e que meu ser e o que me tornarei podem formar um ponto de conex\u00e3o. Na verdade, um recept\u00e1culo de significados e respostas. Somente na abertura ao meu centro desconhecido, talvez eu esteja verdadeiramente conectado comigo mesmo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao mesmo tempo, e apesar de tudo, tento criar um lar tang\u00edvel. Rela\u00e7\u00f5es, lugares, rotinas. Tudo isso demonstra que h\u00e1 algo ausente. Nenhum local de resid\u00eancia despertou em mim o sentimento de pertencimento. Nenhum foi fonte de for\u00e7a ou objeto de identifica\u00e7\u00e3o. As conex\u00f5es foram mais profundas com pessoas, embora nunca a longo prazo, mas conheci algumas que considero almas g\u00eameas.<\/span><\/p>\n<p><b>Quero entender<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O impulso de compreender o mundo de forma abstrata n\u00e3o se assemelha \u00e0 maneira como as m\u00e1quinas e os computadores foram inventados? O ser humano, ao desenvolver seu pensamento abstrato, n\u00e3o est\u00e1 justamente mirando o reino das ideias que Plat\u00e3o trata como uma realidade superior<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">[<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">2]. \u00c9 uma pondera\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No pensamento abstrato, muitas vezes a tentativa de reconhecer as estruturas nos conduz a um espa\u00e7o sem ar e sem vida. Por outro lado, esse pensamento propicia a descoberta de leis da medicina, qu\u00edmica, f\u00edsica etc. que nos ajudam a entender como n\u00f3s e o mundo funcionamos. O abstrato \u00e9 um plano no qual o pensamento l\u00f3gico persiste com dificuldade \u2013 at\u00e9 que seja experimentado como uma verdadeira realidade, e at\u00e9 que os princ\u00edpios da cria\u00e7\u00e3o possam se revelar como ideias e for\u00e7as primordiais superiores. Mas, se nos focarmos somente na fun\u00e7\u00e3o e\u00a0 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> buscarmos a ess\u00eancia, surge a aliena\u00e7\u00e3o, lado a lado com a tecnologia que tanto facilita nossas vidas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por\u00e9m, muito do que a ci\u00eancia desenvolveu e conquistou parece constituir uma imagem fragmentada do estado de ser acolhedor, e talvez divino, que tanto desejamos.<\/span><\/p>\n<p><b>Perguntas<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O conhecimento da \u201cmec\u00e2nica\u201d de todas as coisas confrontou-me com minha exist\u00eancia como uma engrenagem na grande m\u00e1quina do mundo. Ser\u00e1 que eu sou apenas um meio ao inv\u00e9s de um fim? Haver\u00e1 um significado oculto em algum lugar no admir\u00e1vel corpo humano, algo que seja um prop\u00f3sito e n\u00e3o apenas uma ferramenta? Surge a quest\u00e3o da alma como pedra de toque, mas tamb\u00e9m como meio de salva\u00e7\u00e3o. Sinto que a alma deve ser algo que desperta e cresce no corpo para, por fim, carreg\u00e1-lo e, com sorte, transform\u00e1-lo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O mundo \u00e9 o encontro com uma pergunta igualmente abrangente. Estou nele, vivo em seu mist\u00e9rio e sou grato por isso. Na natureza, no entanto, experimento beleza e caos, florescimento e decad\u00eancia. Ela \u00e9 doadora e devoradora. E ela pr\u00f3pria \u00e9 transit\u00f3ria, ainda que n\u00e3o pelos padr\u00f5es humanos. Ser\u00e1 tudo apenas um grande jogo de soma zero no final? Muitas vezes me parece que sim \u2013 e ent\u00e3o, sinto-me estrangeiro na natureza. At\u00e9 mesmo a copa frondosa das \u00e1rvores sob a qual caminho \u00e0s vezes, de forma inesperada, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">t<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">ira-me o f\u00f4lego e mostra-me meu lugar como ser mortal. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 momentos em que a natureza se torna um recipiente transparente da vida que tudo permeia \u2013 e que tamb\u00e9m vive em mim.<\/span><\/p>\n<p><b>A Unidade Perdida<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Houve algo que experimentei na adolesc\u00eancia \u2013 ao mesmo tempo surpreendente e inquietante \u2013 que aponta para a raz\u00e3o primordial da minha sensa\u00e7\u00e3o de er estrangeiro. Perguntei a mim mesmo: por que os outros s\u00e3o diferentes? Por que n\u00e3o me s\u00e3o familiares, por que os encontro a partir de fora?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que vale para as pessoas tamb\u00e9m vale para o mundo: por que eu experimento o mundo de fora, por que sua verdadeira natureza est\u00e1 escondida? Neste estranhamento, emerge uma mem\u00f3ria perdida da unidade . E \u00e9 precisamente essa a raz\u00e3o da minha busca por compreens\u00e3o:\u00a0 o conhecimento das coisas a partir de dentro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse \u00e9 o come\u00e7o de uma nova percep\u00e7\u00e3o e de um novo caminho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O estranhamento se dissipa e o mundo me oferece um lar quando posso oferecer um lar ao Uno dentro de mim. Ele \u00e9 o espa\u00e7o no qual posso perceber a mim mesmo e a todas as coisas a partir de dentro \u2013 uma percep\u00e7\u00e3o (por fim) totalmente abrangente, que completa a percep\u00e7\u00e3o sensorial. Quando isso acontece, tudo se torna um recept\u00e1culo e um s\u00edmbolo vivo para Ele. E sempre que o estranhamento me invade novamente, sei que Ele me lembra que s\u00f3 posso estar em casa aqui, quando estou de passagem.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">[1] Conforme descrito por Hartmut Rosa em: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Aliena\u00e7\u00e3o e Acelera\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, 2010<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">[2] Isto \u00e9, em sua <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Alegoria da Caverna <\/span><\/i><\/p>\n","protected":false},"author":609,"featured_media":111620,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110120],"tags_english_":[],"class_list":["post-123939","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-zeitgeist-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/123939","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/609"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/111620"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=123939"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=123939"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=123939"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=123939"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}