{"id":123663,"date":"2025-12-08T19:56:24","date_gmt":"2025-12-08T19:56:24","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/?post_type=logon_article&#038;p=123663"},"modified":"2025-12-11T08:39:15","modified_gmt":"2025-12-11T08:39:15","slug":"carregando-agua-para-o-mar","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/carregando-agua-para-o-mar\/","title":{"rendered":"Carregando \u00e1gua para o mar"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Uma estadia \u00e0 beira-mar me traz a paz que tanto desejo. Chega de correr de um compromisso para o outro.<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400;\">Alguns dias de espa\u00e7o para contempla\u00e7\u00e3o e respirar fundo. O som das ondas durante um vento forte, das ondas quebrando nos dias ap\u00f3s a tempestade de ver\u00e3o, do suave murm\u00fario quando n\u00e3o h\u00e1 vento, tudo isso leva embora os pensamentos inquietos e minha mente parece ficar mais clara.<\/span><\/i><\/p>\n<p><iframe title=\"Spotify Embed: #200 Carregando a\u0301gua para o mar\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/1HmF77O39z8Cf4hppoRqQf?si=-x9lAMWZRxyo2G-ytugEkA&amp;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 um s\u00e9culo, o mar estava apenas come\u00e7ando a ser descoberto como um lugar de relaxamento, e somente para os ricos. At\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX, o mar era visto como perigoso, uma massa de \u00e1gua que poderia se transformar em um monstro devorador a qualquer momento. Mas em algumas culturas antigas, o mar era reverenciado como a m\u00e3e primordial, da qual toda a vida na Terra foi criada. Para mim, a bela pe\u00e7a musical de Claude Debussy, &#8220;La mer&#8221;, une ambos os pontos de vista em uma melodia ondulante que soa ora calmante, ora estimulante, ora amea\u00e7adora. Uma s\u00edntese de confian\u00e7a, medo, cuidado e calma, tristeza e conforto. Mas o mar n\u00e3o \u00e9 mais aquele mar de outrora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 uma can\u00e7\u00e3o holandesa on\u00edrica de Boudewijn de Groot e Lennart Nijgh, de meados da d\u00e9cada de 1960, que me impressionou na \u00e9poca com seu tom simples e melanc\u00f3lico. \u201cDe waterdrager\u201d (O Carregador de \u00c1gua) fala de um velho que carrega \u00e1gua para o mar todos os dias porque tem medo de que o sol evapore e seque o mar. Mesmo naquela \u00e9poca, era uma ideia completamente absurda, e agora, com a amea\u00e7a da eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar, \u00e9 ainda mais. O t\u00edtulo e a letra da m\u00fasica cont\u00eam uma refer\u00eancia \u00e0 express\u00e3o \u201ccarregar \u00e1gua para o mar\u201d, ou seja, fazer um trabalho desnecess\u00e1rio ou in\u00fatil. O velho aguadeiro est\u00e1 ocupado com isso o dia todo e quando chega a noite ele descansa contente, sabendo que perseverou mais um dia e \u201csalvou o mar do sol\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Agora, por\u00e9m, acho que reconhe\u00e7o uma camada mais profunda nisso, uma refer\u00eancia \u00e0 divindade do mar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O grande mar primordial a que chamamos de Deus anseia por ser nutrido. Ele anseia por nosso amor, nossa aten\u00e7\u00e3o. Aguarda com paci\u00eancia infinita o momento de nos voltarmos para ele, em nossa busca incessante por uma paz profunda e duradoura, um amor eterno, uma unidade eterna. Algo que jamais encontraremos enquanto buscarmos fora de n\u00f3s mesmos. Somente quando nos voltarmos para o nosso ser interior mais profundo, quando come\u00e7armos a nutrir a rosa sedenta dentro de n\u00f3s com a \u00e1gua do nosso amor atento di\u00e1rio, somente ent\u00e3o iniciaremos a jornada rumo \u00e0 unidade e \u00e0 paz duradouras. Ent\u00e3o, o carregador de \u00e1gua desta era, Aqu\u00e1rio, vir\u00e1 nos auxiliar com a \u00e1gua viva, para nos refrescar de maneira muito direta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O ser humano industrializado do s\u00e9culo XXI preocupa-se primordialmente com a busca de conforto e prazer. Al\u00e9m disso, solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas precisam ser encontradas para os problemas e desafios cotidianos que a vida terrena nos apresenta. Sem percebermos, n\u00f3s, como humanidade, nos afastamos muito do nosso destino. Temos subjugado cada vez mais a cria\u00e7\u00e3o natural \u00e0 nossa pr\u00f3pria vontade, chegando ao ponto de recorrermos \u00e0 fiss\u00e3o at\u00f4mica e \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. E agora, com a Intelig\u00eancia Artificial, criamos uma for\u00e7a que n\u00e3o d\u00e1 para parar e que pode acabar nos atrapalhando mais do que nos ajudando. A cada nova inven\u00e7\u00e3o, nos deparamos com o oposto da ajuda: grandes desvantagens e obst\u00e1culos, muitas vezes imprevis\u00edveis. Para estes, por sua vez, \u00e9 preciso criar uma nova solu\u00e7\u00e3o, e assim forjamos uma enorme corrente que nos prende cada vez mais ao mundo terreno.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ser\u00e1 que Nijgh e De Groot tiveram um momento de inspira\u00e7\u00e3o quando escreveram sobre o carregador de \u00e1gua?\u00a0 Percebo aqui uma hip\u00e9rbole que delineia o pensamento e o comportamento do mundo industrializado \u2014 cada inven\u00e7\u00e3o parece ser motivo para maior arrog\u00e2ncia. &#8220;A tecnologia n\u00e3o vale nada&#8221;, ouvi muitas vezes no passado. Parecia um slogan. Mas o texto tamb\u00e9m mostra o solit\u00e1rio que pensa poder agir contra essa forma de pensar. Nijgh e De Groot enxergaram a arrog\u00e2ncia infantil na pessoa que pensa que deve controlar a Terra e seu maior organismo vivo. E tamb\u00e9m salv\u00e1-la do sol, quando o mar e o sol normalmente trabalham juntos de forma otimizada. Mas n\u00e3o somos todos, na verdade, esse ansioso carregador de \u00e1gua? N\u00e3o temos todos a tend\u00eancia de querer controlar a vida? Para qual mar carregamos nossa \u00e1gua todos os dias?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 uma manh\u00e3 tranquila \u00e0 beira-mar. Caminho descal\u00e7o pelas ondas suaves da mar\u00e9 vazante. Crian\u00e7as pequenas brincam com baldes e p\u00e1s perto de um castelo de areia em ru\u00ednas do dia anterior. Elas se apressam para manter o n\u00edvel da \u00e1gua que sai do fosso, agora que a mar\u00e9 est\u00e1 baixando. Talvez a can\u00e7\u00e3o tenha sido escrita simplesmente para uma crian\u00e7a que vivenciou esse fen\u00f4meno pela primeira vez e pensou que precisava repor a \u00e1gua do mar que recua. Mesmo assim, resultou em uma bela can\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>O Carregador de \u00c1gua<\/p>\n<p>O mar cai, o mar desce,<br \/>\nE o sol nasce, brilhando intensamente.<br \/>\nO carregador de \u00e1gua medroso busca mais \u00e1gua.<br \/>\npois o mar est\u00e1 secando.<\/p>\n<p>O mar sobe, o mar ascende,<br \/>\nE lentamente o sol se p\u00f5e.<br \/>\nO carregador de \u00e1gua trabalha arduamente e ofega,<br \/>\nTalvez ele consiga hoje.<br \/>\nPois o mar precisa ser salvo do sol.<br \/>\nPois o mar precisa ser salvo do sol.<\/p>\n<p>Carregador de \u00e1gua, leva a \u00e1gua para o mar.<br \/>\nCarregador de \u00e1gua, leva a \u00e1gua para o mar.<\/p>\n<p>O mar beija, o mar extingue<br \/>\ne aplaca o calor do sol da tarde.<br \/>\nO carregador de \u00e1gua dorme e descansa.<br \/>\nsatisfeito por ter conseguido.<br \/>\ne salvou o mar do sol.<br \/>\nE salvou o mar do sol.<\/p>\n<p>Carregador de \u00e1gua, leva a \u00e1gua para o mar.<br \/>\nCarregador de \u00e1gua, leva a \u00e1gua para o mar.<\/p>\n<p>O mar est\u00e1 em chamas, o mar arde,<br \/>\nO carregador de \u00e1gua queima as costas dele.<br \/>\nO sol nasce na parte de tr\u00e1s,<br \/>\nO carregador de \u00e1gua volta apressadamente.<br \/>\nPois o mar precisa ser salvo do sol.<br \/>\nPois o mar precisa ser salvo do sol.<\/p>\n<p>Carregador de \u00e1gua, leva a \u00e1gua para o mar.<br \/>\nCarregador de \u00e1gua, leva a \u00e1gua para o mar.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lennaert Nijgh \/ Boudewijn de Groot<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Refer\u00eancia:\u00a0 <\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=lSGUKBXq-So\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=lSGUKBXq-So<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":609,"featured_media":123464,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[111075],"tags_english_":[],"class_list":["post-123663","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-art"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/123663","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/609"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/123464"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=123663"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=123663"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=123663"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=123663"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}