{"id":111822,"date":"2024-11-23T06:00:19","date_gmt":"2024-11-23T06:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/?post_type=logon_article&#038;p=111822"},"modified":"2024-11-23T21:35:52","modified_gmt":"2024-11-23T21:35:52","slug":"tudo-se-transforma","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/tudo-se-transforma\/","title":{"rendered":"Tudo se transforma"},"content":{"rendered":"<p><em>A \u00e1gua n\u00e3o compreende que chove, a flor ignora seu perfume, a estrela desconhece sua luz e o ser humano n\u00e3o sabe que \u00e9 eterno.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O regato subterr\u00e2neo findou em um olho d\u2019\u00e1gua, que morreu no rio, que se perdeu no oceano, que evaporou na nuvem, que desapareceu do c\u00e9u e condensou como chuva, que caiu na terra e sumiu na infiltra\u00e7\u00e3o do terreno.<\/p>\n<p>A infiltra\u00e7\u00e3o da chuva gerou um regato subterr\u00e2neo, que surgiu como um olho d\u2019\u00e1gua, que originou um rio, que alimentou o oceano, de onde nasceu a nuvem, que produziu a chuva, que umedeceu a terra e intumesceu a semente.<\/p>\n<p>A semente morreu e dela brotou a \u00e1rvore frondosa, que se enfeitou de belas e perfumadas flores, cujas p\u00e9talas feneceram docemente e abriram espa\u00e7o para nascerem os frutos, que alimentaram os p\u00e1ssaros e os morcegos, que disseminaram as sementes.<\/p>\n<p>Distante dali uma estrela fez voltas infind\u00e1veis na gal\u00e1xia, chegou ao termo de seus mil\u00eanios e transformou-se em uma supernova, que desapareceu em uma explos\u00e3o monumental. Da poeira c\u00f3smica resultante nasceu uma nebulosa, que gerou belos e misteriosos corpos celestes.<\/p>\n<p>Perto de tudo, do regato, da \u00e1rvore e da estrela, a grande transforma\u00e7\u00e3o caminha desde que o tempo nasceu, pois todos seguem os ciclos insond\u00e1veis das muta\u00e7\u00f5es da natureza, em que a morte \u00e9 parte insepar\u00e1vel da vida, bem como a vida \u00e9 sequ\u00eancia inevit\u00e1vel da morte.<\/p>\n<p>N\u00f3s bebemos a \u00e1gua, comemos os frutos e recebemos o calor e a luz da estrela e, assim, somos feitos dos mesmos materiais que constituem nossos irm\u00e3os da Cria\u00e7\u00e3o. Por que n\u00e3o participar\u00edamos dos mesmos ciclos de transforma\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Fazemos parte do caprichoso bordado que o Eterno faz e refaz no tecido do espa\u00e7o-tempo, que chamamos de realidade, cujo fio que tece a trama \u00e9 a pr\u00f3pria consci\u00eancia. No bastidor da eternidade surgem regatos, flores, p\u00e1ssaros e constela\u00e7\u00f5es e, quando aparece o ser humano, o Eterno v\u00ea a sua imagem refletida e sorri.<\/p>\n<p>Nas diversas grada\u00e7\u00f5es de estados de consci\u00eancia, a \u00e1gua n\u00e3o compreende que chove, a flor ignora seu perfume, a estrela desconhece sua luz e o ser humano n\u00e3o sabe que \u00e9 eterno.<\/p>\n<p>A \u00e1gua circula no planeta h\u00e1 milh\u00f5es de anos, e o seu ciclo \u00e9 o conjunto de suas partes. No entanto, caso essas partes decidissem se desconectar, as nuvens poderiam se recusar a chover, os rios deixariam de alimentar os mares, que por sua vez negariam a evapora\u00e7\u00e3o. O ciclo da \u00e1gua se desfaria, porque a perenidade pertence ao Todo, mas n\u00e3o \u00e0s suas partes isoladas.<\/p>\n<p>Caso as flores recusassem o fenecimento, os frutos n\u00e3o surgiriam; \u00e9 necess\u00e1rio que os frutos e as sementes morram para que uma nova \u00e1rvore possa nascer. Uma \u00e1rvore que ambicionasse a eternidade e recusasse a transforma\u00e7\u00e3o fatalmente deixaria de existir, pois a \u00e1rvore existe como esp\u00e9cie e n\u00e3o como indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Para os seres humanos o processo evolutivo foi longo at\u00e9 o surgimento de uma consci\u00eancia de si mesmos, uma autoconsci\u00eancia, o que nos difere de outros animais, riachos, \u00e1rvores e estrelas. Ao voltar-se para si mesmo, no entanto, a autoconsci\u00eancia paulatinamente se transformou em egocentraliza\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 uma caracter\u00edstica da sociedade humana moderna.<\/p>\n<p>O ser humano \u00e9 uma fra\u00e7\u00e3o indissoci\u00e1vel do Todo, mas sua consci\u00eancia lhe diz que ele est\u00e1 desconectado. Intuitivamente ele percebe que a eternidade pertence ao Todo, mas n\u00e3o \u00e0s suas partes isoladas e, assim, nos estratos mais profundos de sua consci\u00eancia ele compreende que n\u00e3o pode ser eterno em si mesmo.<\/p>\n<p>\u201cEsse eu voltado para dentro, e isolado, esse pseudo eu defende-se pertinazmente da morte, da desintegra\u00e7\u00e3o e da transcend\u00eancia, por um lado, e por outro aspira a ser e faz de conta que \u00e9 o centro do cosmos, onipotente e imortal&#8230; O terror da morte \u00e9 inerente \u00e0 percep\u00e7\u00e3o do eu separado, ao sujeito separado&#8230;\u201d. Essa percep\u00e7\u00e3o de isolamento, no entanto, \u00e9 falsa, pois \u201cn\u00e3o h\u00e1 nenhuma entidade radicalmente separada em parte alguma \u2013 a fronteira entre o sujeito e o objeto \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, ilus\u00f3ria.\u201d [2]<\/p>\n<p>Respiramos oxig\u00eanio que \u00e9 parcialmente produzido por uma pequena alga verde diatom\u00e1cea que vive nos oceanos. Esse oxig\u00eanio \u00e9 transferido pelos alv\u00e9olos pulmonares \u00e0 circula\u00e7\u00e3o do sangue e alimenta cada uma de nossas c\u00e9lulas, tecidos e \u00f3rg\u00e3os, tornando a vida poss\u00edvel. Dessa forma, mantemos um relacionamento intr\u00ednseco e profundo com essa alga microsc\u00f3pica. N\u00e3o percebemos que estamos inequivocamente conectados \u00e0 diatom\u00e1cea e igualmente aos mares, aos nutrientes levados pelos rios que propiciaram sua reprodu\u00e7\u00e3o, \u00e0s florestas e matas pelas quais o rio serpenteou e ao sol que promoveu a fotoss\u00edntese. Pertencemos, indubitavelmente, ao Todo.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 necess\u00e1rio que o Homem transcenda a ilus\u00e3o da separatividade e compreenda que tudo \u00e9 transforma\u00e7\u00e3o. Podemos, dessa forma, seguir o ciclo de nossa exist\u00eancia, palmilhando a espiral ascendente de transforma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia, cujo fim n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel discernir ainda. Nesse ciclo, olhamos corajosamente para tudo que nos isola, como preconceitos, vaidades e onipot\u00eancia, permitindo que a luz da compreens\u00e3o os dissolva, como a n\u00e9voa que se esvai ao sol nascente.<\/p>\n<p>E, um dia, poderemos abra\u00e7ar a grande transforma\u00e7\u00e3o que conscientemente fizemos e dizer: \u201cVamos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<br \/>\n[1] ANDRADE, Fernando Teixeira. O medo: o maior gigante da alma. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.luso-poemas.net\/modules\/news\/print.php?storyid=300147\">O medo: o maior gigante da alma (Fernando Teixeira de Andrade) &#8211; Imprimir este texto &#8211; Cr\u00f3nicas &#8211; Luso-Poemas<\/a> Acesso em 05 Fevereiro 2024.<br \/>\n[2] WILBER, Ken. O Projeto Atman: uma vis\u00e3o transpessoal do desenvolvimento humano. S\u00e3o Paulo: Editora Cultrix Ltda., 1996. 219 p.<\/p>\n","protected":false},"author":609,"featured_media":111817,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110120],"tags_english_":[],"class_list":["post-111822","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-zeitgeist-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/111822","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/609"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/111817"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=111822"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=111822"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=111822"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=111822"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}