{"id":110177,"date":"2024-06-06T11:26:04","date_gmt":"2024-06-06T11:26:04","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/?post_type=logon_article&#038;p=110177"},"modified":"2024-10-16T20:01:06","modified_gmt":"2024-10-16T20:01:06","slug":"a-outra-margem","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/a-outra-margem\/","title":{"rendered":"A Outra Margem"},"content":{"rendered":"<p><strong>Voc\u00ea prefere ouvir este artigo?<\/strong><\/p>\n<!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('audio');<\/script><![endif]-->\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-110177-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/logon.media\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/A-outra-margem-final.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/logon.media\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/A-outra-margem-final.mp3\">https:\/\/logon.media\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/A-outra-margem-final.mp3<\/a><\/audio>\n<p><em> H\u00e1 um tempo em que \u00e9 preciso abandonar as roupas usadas, que j\u00e1 t\u00eam a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. <\/em><!--more--><\/p>\n<p><em>\u00c9 o tempo de travessia: e, se n\u00e3o pudermos faz\u00ea-la, teremos ficado, para sempre, \u00e0 margem de n\u00f3s mesmos.<br \/>\nFernando Teixeira de Andrade<\/em><\/p>\n<p>O dia estava morno, o sol na posi\u00e7\u00e3o perfeita. Vez ou outra batia uma leve e suave brisa de ar fresco. Por um momento, num breve lapso no tempo, senti que havia algo mais. Algo al\u00e9m da vida med\u00edocre e pequena que levava. N\u00e3o que fosse ruim, mas uma ang\u00fastia pouca, daquelas que incomodam o peito devido a sua const\u00e2ncia, me fazia pensar nos mist\u00e9rios da vida!<\/p>\n<p>Tinha que existir algo mais.<\/p>\n<p>Noutro dia, quando o sol j\u00e1 n\u00e3o aparecia e a noite estava acinzentada, uma chuva de granizo ca\u00eda, como se encerrasse um ciclo. Dentro de mim, teimava uma coragem para pegar a canoa em que h\u00e1 muito trabalhava, e fazer o que eu queria<\/p>\n<p>Fazer o que h\u00e1 tempos me instigava.<\/p>\n<p>Estava frio e todos em casa dormiam. Pensei que era o momento, hora de ir. J\u00e1 n\u00e3o me importava o que pensariam ou diriam e o quanto isso parecia ego\u00edsta.<\/p>\n<p>Tratava-se de vida ou morte. Cheguei a pensar que estava doente, doente da alma.<\/p>\n<p>Que dor \u00e9 essa que nem rem\u00e9dio, nem doutor podem arrancar?!<\/p>\n<p>Que invis\u00edvel \u00e9 esse que castiga e me confronta<\/p>\n<p>N\u00e3o pensei em nada mais. Sa\u00ed arrastando minha canoa rio adentro sem nem sentir a chuva.<\/p>\n<p>Sa\u00ed vazio, nu, disposto. N\u00e3o levei suprimento, nem muda de roupa. Achei mesmo que pudesse estar louco. Foi o que fiz, e n\u00e3o posso explicar a sensa\u00e7\u00e3o de quando abandonei tudo que pensava ser&#8230;<\/p>\n<p>Olhei de longe a casinha, o quintal, a grama. Lembrei-me do dia morno e do sol, na sua bondade despretensiosa, naquele dia em que tive o lapso&#8230;<\/p>\n<p>Assustei-me ao ver de longe que algu\u00e9m estava na porta e parecia ter se dado conta de que eu tinha ido&#8230;<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o apertou, mas foi s\u00f3. Eu nunca havia me sentido t\u00e3o inteiro, como se, passando da margem do rio, passasse da margem de mim mesmo. Quem al\u00e9m de mim me falava?<\/p>\n<p>N\u00e3o estava louco, como suspeitara. Pude ir ao fundo da exist\u00eancia e dar in\u00edcio a uma transforma\u00e7\u00e3o interior. Experimentei a liberdade, o novo como promessa de vida.<\/p>\n<p>Na solid\u00e3o do rio, em sua \u201cofensiva\u201d amplitude, eu, enfim, havia me encontrado. Como uma cortina que se abre no palco da vida, como um caminho oculto que de repente surge. Fui para sempre. Abri passagem, descobri novos territ\u00f3rios e outras possibilidades.<\/p>\n<p>Muito tempo se passou, mas isso n\u00e3o fez diferen\u00e7a. Eu me sentia conectado a tudo e a todos, mas de uma maneira distinta.<\/p>\n<p>Eu sabia que minha vida em minha casa n\u00e3o seria mais a mesma. Eu poderia morar l\u00e1 e, ao mesmo tempo, estar em outra margem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS:<br \/>\n[1] ANDRADE, Fernando Teixeira. <em>O medo: o maior gigante da alma<\/em>. Dispon\u00edvel em<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.luso-poemas.net\/modules\/news\/print.php?storyid=300147\">O medo: o maior gigante da alma (Fernando Teixeira de Andrade) &#8211; Imprimir este texto &#8211; Cr\u00f3nicas &#8211; Luso-Poemas<\/a><\/p>\n<p>Acesso em 05 fevereiro 2024.<br \/>\nTexto inspirado no conto de Guimar\u00e3es Rosa: A Terceira Margem do Rio.<\/p>\n","protected":false},"author":609,"featured_media":110172,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110120],"tags_english_":[],"class_list":["post-110177","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-zeitgeist-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/110177","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/609"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/110172"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=110177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=110177"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=110177"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=110177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}