{"id":109021,"date":"2024-04-24T02:59:20","date_gmt":"2024-04-24T02:59:20","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/logon_article\/ponha-tudo-a-prova-e-agarre-se-ao-que-e-bom\/"},"modified":"2025-07-03T20:30:43","modified_gmt":"2025-07-03T20:30:43","slug":"ponha-tudo-a-prova-e-agarre-se-ao-que-e-bom","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/ponha-tudo-a-prova-e-agarre-se-ao-que-e-bom\/","title":{"rendered":"Ponha tudo \u00e0 prova e agarre-se ao que \u00e9 bom"},"content":{"rendered":"<p><em>No mundo mut\u00e1vel de hoje, muitas pessoas se sentem apressadas e inseguras. Depress\u00e3o ocorre em todas as idades, inclusive em pessoas jovens. Muitos procuram uma sa\u00edda. Para que serve tudo isso? E h\u00e1 uma sa\u00edda? <\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Muito j\u00e1 foi dito e escrito sobre o poeta, escritor, cantor e compositor canadense Leonard Cohen (1934-2016); sobre sua voz especial, sua personalidade carism\u00e1tica e o grande n\u00famero de lindas can\u00e7\u00f5es que ele escreveu ao longo de sua vida. Uma vida bem-sucedida e motivo de satisfa\u00e7\u00e3o, voc\u00ea pode pensar. Mas ele tamb\u00e9m sofreu de depress\u00e3o durante a maior parte de sua vida. E passou a vida tentando se curar da dor mental que enfrentava. Alguns dizem ser poss\u00edvel ouvi-la no timbre l\u00fagubre de sua voz, sombrio-melanc\u00f3lico, e em suas letras po\u00e9ticas e, em muitos casos, conflituosas. Ele mesmo sabia disso; n\u00e3o \u00e9 sem motivo que seu \u00faltimo \u00e1lbum \u00e9 intitulado \u201cYou want it darker\u201d (\u201cVoc\u00ea quer mais sombrio\u201d).<\/p>\n<p>Em uma fala de 1964, ele sugere:<\/p>\n<blockquote><p><em>Busque de todas as formas conceb\u00edveis, pesquise usando sexo, drogas, jejum, mas use tudo como um meio de buscar Deus, de experimentar a perfei\u00e7\u00e3o do universo.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A julgar por seu estilo de vida e suas letras, ele fez isso de forma intensa. Nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, jovens come\u00e7aram a se aprofundar em formas orientais de pensar, descobrindo, entre outras coisas, o \u201cfazer do n\u00e3o fazer\u201d. Isso \u00e0s vezes era interpretado como um chamado para abandonar todas as atividades. Em uma entrevista posterior [i], ele reconhece que as drogas n\u00e3o oferecem real liberdade, pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<blockquote><p><em>N\u00e3o h\u00e1 muitas pessoas preparadas para come\u00e7ar de novo ap\u00f3s a demoli\u00e7\u00e3o de antigas estruturas; algumas n\u00e3o come\u00e7am de novo de modo algum, elas param o que estavam fazendo e n\u00e3o fazem nada mais. Eu j\u00e1 vi muitas pessoas se esgotarem por causa de anfetamina e LSD.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Aparentemente, ele foi forte o suficiente para n\u00e3o ser destru\u00eddo pelo uso de drogas.<\/p>\n<p>Entretanto, havia tamb\u00e9m formas mais f\u00e1ceis para ele lidar com sua depress\u00e3o. Ele se prendia a um cronograma di\u00e1rio fixo, que lhe proporcionava estrutura e estabilidade. Come\u00e7ava com uma x\u00edcara de caf\u00e9, tocava o viol\u00e3o por meia hora e depois se sentava \u00e0 m\u00e1quina de escrever. E n\u00e3o se incomodava com a bagun\u00e7a acumulando-se ao seu redor. Mas, para ele, o ponto em torno do qual tudo girava era o cora\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p><em>As verdadeiras armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa s\u00e3o os cora\u00e7\u00f5es endurecidos da humanidade. Se o cora\u00e7\u00e3o se abranda, ent\u00e3o a atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida tamb\u00e9m se abranda.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Ele repete isso em v\u00e1rias entrevistas subsequentes: come\u00e7a com o cora\u00e7\u00e3o, que deve ser abrandado e aberto. Mas isso n\u00e3o acontece sem luta, e nem com nosso livre-arb\u00edtrio, o &#8220;livre&#8221; que ele questiona [ii].<\/p>\n<blockquote><p><em>Geralmente, somos acionados por nossos reflexos para reagir, ao inv\u00e9s de agirmos de forma consciente.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Para ele, \u00e9 evidente que a oportunidade de abrandar o cora\u00e7\u00e3o e realizar uma mudan\u00e7a real surge somente em tempos de cat\u00e1strofes de qualquer natureza. E, embora fosse de se esperar que ele tivesse se tornado terminalmente deprimido devido \u00e0s experi\u00eancias de sua fam\u00edlia com a persegui\u00e7\u00e3o na R\u00fassia por volta da virada do s\u00e9culo passado e, depois, por suas pr\u00f3prias experi\u00eancias com relacionamentos fracassados, sua pr\u00f3pria imperfei\u00e7\u00e3o pessoal, a perda de toda a sua fortuna e afins, ele mesmo n\u00e3o via as coisas dessa forma. Ele se sentia, sim, respons\u00e1vel por sua pr\u00f3pria atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, e usou v\u00e1rios m\u00e9todos para obter autoconhecimento. N\u00e3o de acordo com um programa fixo, mas ecl\u00e9tico, experimentando todos os tipos de programa para se agarrar ao que era bom. E, especialmente, perseverando em seu caminho.<\/p>\n<blockquote><p><em>Eu apenas acho que o meu programa \u00e9 tentar superar.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Em uma entrevista de 1980, ele diz que a import\u00e2ncia do ego \u00e9 altamente superestimada.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00c0 medida que envelhecemos, descobrimos gradualmente que nosso trabalho \u00e9 insignificante, nossos corpos s\u00e3o fr\u00e1geis e nossos relacionamentos s\u00e3o inst\u00e1veis, portanto, manter o ego sobre esses alicerces \u00e9 in\u00fatil e traz sofrimento. A \u00fanica coisa sensata a fazer \u00e9 tornar o ego menos importante. Se o ego conseguir afastar-se, render sua pr\u00f3pria vontade \u00e0 vontade maior que transcende nossa pr\u00f3pria vontade, ent\u00e3o algo tomar\u00e1 o seu lugar e nos dar\u00e1 algo de maior em troca.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Na mesma entrevista, ele diz, sobre o relacionamento entre os g\u00eaneros, que o homem e a mulher n\u00e3o est\u00e3o aqui sem uma raz\u00e3o, que<\/p>\n<blockquote><p><em>n\u00f3s temos, em nosso interior, uma necessidade de adorar.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A atra\u00e7\u00e3o entre os g\u00eaneros representa algo maior. Ele fala aqui da verdadeira unidade, algo que muitas pessoas anseiam. Mas essa unidade \u00e9 de uma ordem completamente diferente daquela de uma sociedade ut\u00f3pica. Toda a sua obra expressa um conhecimento de ter ca\u00eddo do maior, da unidade original, para um campo existencial de dualidade, do qual o ser humano deve retornar \u00e0 unidade. Per\u00edodos de adversidades s\u00e3o cruciais por causa do confronto com quest\u00f5es fundamentais da vida, como ele diz na letra de sua m\u00fasica:<\/p>\n<blockquote><p><em>H\u00e1 uma rachadura em tudo. \u00c9 assim que a luz entra.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Recentemente, descobri seu livro \u201c<em>Book of Mercy<\/em>\u201d [iii], que ele publicou em 1984, ano de seu quinquag\u00e9simo anivers\u00e1rio. O livro consiste em cinquenta poemas em prosa \u2014 ele mesmo fala de ora\u00e7\u00f5es. Esses poemas testemunham um anseio profundo, uma compreens\u00e3o de ter se desviado, um sentimento de incompletude, um desejo de liberta\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es dessa vida f\u00edsica presa ao tempo, que tem asseguradas, desde o in\u00edcio, incerteza e instabilidade. O livro inteiro transpira essa percep\u00e7\u00e3o, esse discernimento das possibilidades de o ser humano encontrar uma sa\u00edda nesta vida e experimentar uma exist\u00eancia na eternidade.<\/p>\n<blockquote><p>Verso 9\u00a0<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Aben\u00e7oado \u00e9s tu, que deste a cada homem um escudo de solid\u00e3o para que ele n\u00e3o se esque\u00e7a de ti. Tu \u00e9s a verdade da solid\u00e3o, e somente o teu nome a aborda. Fortifique minha solid\u00e3o para que eu possa ser curado em teu nome, que est\u00e1 al\u00e9m de todas as consola\u00e7\u00f5es que s\u00e3o proferidas nesta terra. Somente em teu nome posso resistir \u00e0 precipita\u00e7\u00e3o do tempo, somente quando esta solid\u00e3o for tua poderei erguer meus pecados em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 tua miseric\u00f3rdia.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Ele parece falar em nome da pessoa solit\u00e1ria de hoje, t\u00e3o altamente individualizada que h\u00e1 cada vez menos consenso com as outras. Talvez exatamente por causa disso, ela se torne concentrada na busca pela unidade original e possa somente recorrer ao portal da origem escondido no fundo do cora\u00e7\u00e3o. Para o Outro no interior de si mesma, <em>teu nome, que est\u00e1 al\u00e9m de todas as consola\u00e7\u00f5es que s\u00e3o proferidas nesta terra<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil classificar Leonard Cohen em uma categoria espec\u00edfica em termos de estilo. Suas melodias, letras e seu estilo de canto, \u00e0s vezes falado, s\u00e3o \u00fanicos. Talvez o t\u00edtulo \u201ctrovador do s\u00e9culo vinte\u201d seja o mais adequado. A palavra trovador vem do franc\u00eas <em>trouver<\/em>, que significa \u201cencontrar\u201d.<\/p>\n<blockquote><p><em>Mas ponde tudo \u00e0 prova. Retende o que \u00e9 bom;<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>como est\u00e1 escrito nos evangelhos. Sua m\u00e3e, Mascha Cohen, disse certa vez em uma entrevista: \u201cLeonard est\u00e1 voltando para casa.\u201d<\/p>\n<blockquote><p>Verso 50\u00a0<em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Perdi meu caminho, esqueci-me de invocar teu nome. O cora\u00e7\u00e3o cru bateu contra o mundo, e as l\u00e1grimas eram da minha vit\u00f3ria perdida. Mas tu est\u00e1s aqui. Tu sempre estiveste aqui. O mundo est\u00e1 todo esquecendo, e o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma f\u00faria de dire\u00e7\u00f5es, mas o teu nome unifica o cora\u00e7\u00e3o, e o mundo \u00e9 colocado em seu lugar. Aben\u00e7oado \u00e9 aquele que espera no cora\u00e7\u00e3o do viajante por sua volta.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>De uma entrevista com Patrick Watson:<\/p>\n<blockquote><p><em>Eu gostaria de viver uma vida na qual o eu fosse menos predominante. Acho que a \u00fanica maneira de sair do sofrimento \u00e9, de alguma forma, resolver ou atacar esse ponto de vista espec\u00edfico.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Leonard Norman Cohen<\/strong>\u00a0(21\/09\/1934 \u2013 07\/11\/2016) nasceu em Montreal, em uma fam\u00edlia judia ortodoxa rica de ascend\u00eancia lituana. Desde cedo teve grande interesse por poesia e m\u00fasica, em especial pela obra do poeta espanhol Federico Garc\u00eda Lorca. Ele aprendeu sozinho a tocar viol\u00e3o cl\u00e1ssico. Ap\u00f3s escrever v\u00e1rios romances de venda moderada, ele se tornou conhecido como poeta\/cantor. Ganhou fama mundial em 1968, com sua can\u00e7\u00e3o \u201cSuzanne\u201d. Depois disso, continuou a escrever poesia, compor e cantar quase at\u00e9 a sua morte. Ele \u00e9 mais conhecido por suas letras po\u00e9ticas e seu estilo de canto caracter\u00edstico. Sua can\u00e7\u00e3o \u201cHallelujah\u201d conta com mais de cem milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es nos principais servi\u00e7os de streaming. Seu trabalho foi traduzido para muitos idiomas.<\/p>\n<p><strong>Fontes:<\/strong><\/p>\n<p><u>[i]<\/u>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6VpQNDmeHDw\">Leonard Cohen Interview (1980): CBC \u2018Authors\u2019 with Patrick Watson (youtube.com)<\/a><\/p>\n<p><u>[ii]<\/u>\u00a0Leonard Cohen\u2019s Theories on Life, Democracy &amp; the Future | MTV Full 1993<\/p>\n<p><u>[iii]<\/u>\u00a0L.N. Cohen,\u00a0<em>Book of Mercy<\/em>, Canongate 1984, ISBN 9781786896865<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":923,"featured_media":107261,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110069],"tags_english_":[],"class_list":["post-109021","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-art-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/109021","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/923"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/107261"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=109021"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=109021"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=109021"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=109021"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}