{"id":104612,"date":"2023-09-05T18:26:30","date_gmt":"2023-09-05T18:26:30","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/logon_article\/permitir-que-o-outro-seja\/"},"modified":"2024-02-17T13:19:14","modified_gmt":"2024-02-17T13:19:14","slug":"permitir-que-o-outro-seja","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/permitir-que-o-outro-seja\/","title":{"rendered":"Permitir que o Outro seja"},"content":{"rendered":"<p><strong>Voc\u00ea prefere ouvir este artigo? <\/strong><\/p>\n<!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('audio');<\/script><![endif]-->\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-104612-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/logon.media\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Permitir-que-o-outro-seja-final.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/logon.media\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Permitir-que-o-outro-seja-final.mp3\">https:\/\/logon.media\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Permitir-que-o-outro-seja-final.mp3<\/a><\/audio>\n<p>Raimon Panikkar nasceu em Barcelona em 1918. Sua m\u00e3e era catal\u00e3, de f\u00e9 cat\u00f3lica, com uma forte aptid\u00e3o para acolher as necessidades do novo s\u00e9culo, especialmente no campo da participa\u00e7\u00e3o na vida civil e dos direitos das mulheres; seu pai era um aristocrata hindu indiano pr\u00f3ximo dos c\u00edrculos de Gandhi. A vida do jovem Panikkar foi repleta de estudos e gradua\u00e7\u00f5es nos campos filos\u00f3fico, cient\u00edfico e teol\u00f3gico, o que o levou a trabalhar como professor aut\u00f4nomo e palestrante em muitas universidades da Europa e dos Estados Unidos. Aos 36 anos, quando se mudou para Varanasi, na \u00cdndia, para aprofundar o estudo das tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e religiosas indianas, j\u00e1 era um padre cat\u00f3lico. Passou o resto da sua vida principalmente entre a \u00cdndia, a Calif\u00f3rnia e Tavertet, uma aldeia montanhosa ao p\u00e9 dos Pirineus, \u00faltimo local da sua peregrina\u00e7\u00e3o de constante estudo e medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>O di\u00e1logo dial\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cDi\u00e1logo \u00e9 a vida. Se o di\u00e1logo \u00e9 rompido,\u00a0 tudo se rompe.\u201d<\/em> (R. Panikkar em <em>Paz e Desarmamento Cultural<\/em>).<\/p>\n<p>A pluralidade da circula\u00e7\u00e3o de pessoas e mercadorias, das trocas de todo tipo, materiais e imateriais (informa\u00e7\u00e3o), dos diferentes estilos de vida for\u00e7ados a conviver pelas correntes da globaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o corresponde em termos de rela\u00e7\u00f5es humanas \u00e0 pluralidade harmoniosa que pode se desenvolver em um di\u00e1logo.\u00a0 Muitas vezes ainda vemos&#8230; &#8220;<em>o entrela\u00e7amento est\u00e9ril de mon\u00f3logos\u201d (La m\u00edstica en el siglo XXI, Madrid 2002).<\/em><\/p>\n<p>Segundo Panikkar, a chave para uma rela\u00e7\u00e3o viva entre os seres humanos \u00e9 o di\u00e1logo &#8220;dia-l\u00f3gico&#8221;. O que \u00e9 isso? Todos os dias vemos nos chamados di\u00e1logos apenas a dial\u00e9tica competitiva, a altern\u00e2ncia de opini\u00f5es, fato que sugere a ideia ilus\u00f3ria de uma pluralidade; mas a ilus\u00e3o continua e muitas vezes \u00e9 muito decepcionante.<\/p>\n<p>Transformar o di\u00e1logo em uma rela\u00e7\u00e3o aut\u00eantica, para al\u00e9m das barreiras de ideias pr\u00e9-concebidas, significa superar a dial\u00e9tica e acionar a criatividade, um lugar ativo onde o pr\u00f3prio di\u00e1logo ocorre. O que acontece neste lugar? \u00c9 criada uma &#8220;terceira via&#8221; que une as duas sem aniquil\u00e1-las brutalmente. Al\u00e9m da forma, o logos, descobrimos o mito, a hist\u00f3ria que est\u00e1 por tr\u00e1s do discurso, a hist\u00f3ria na qual quem est\u00e1 falando realmente acredita. E assim aparecem os v\u00e9us das cren\u00e7as, dos s\u00edmbolos que alimentam as cren\u00e7as \u2014 mas tamb\u00e9m os preconceitos. Nesse ponto, as armas de combate s\u00e3o contundentes, e s\u00f3 resta o autoconhecimento percebido atrav\u00e9s do olhar do outro.<\/p>\n<p>Esse processo requer confian\u00e7a; n\u00e3o do tipo formal ou politicamente correto, mas uma confian\u00e7a verdadeira. No n\u00edvel filos\u00f3fico, superam-se tanto a vis\u00e3o monista quanto a dualista para chegar a um todo (holismo) no qual os processos, os relacionamentos e as formas s\u00e3o a pr\u00f3pria vida; o todo n\u00e3o \u00e9 a soma das partes.\u00a0 No n\u00edvel da conviv\u00eancia social, desde os lugares de forma\u00e7\u00e3o escolar at\u00e9 os de educa\u00e7\u00e3o para escuta adequada, pode-se compreender o qu\u00e3o fundamental \u00e9 o pr\u00f3prio processo para esse di\u00e1logo.<\/p>\n<p><strong>A vis\u00e3o cosmote\u00e2ndrica<\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;O divino, o humano e o terrestre \u2014 como quisermos cham\u00e1-los \u2014 s\u00e3o as tr\u00eas dimens\u00f5es irredut\u00edveis que constituem a realidade&#8221;<\/em> (R. Panikkar em <em>Realt\u00e0 Cosmote\u00e2ndrica<\/em>). Panikkar usa a l\u00edngua grega para falar do Mundo, do Criador e das criaturas, tr\u00eas est\u00e1gios da exist\u00eancia que, no decorrer do tempo, conheceram infinitas varia\u00e7\u00f5es terminol\u00f3gicas. Certamente n\u00e3o para descobrir uma nova fragmenta\u00e7\u00e3o, mas para testemunhar sua vis\u00e3o dos tr\u00eas em uma rela\u00e7\u00e3o din\u00e2mica inesgot\u00e1vel, nunca sendo separados nem anulados um pelo outro. Uma &#8220;secularidade sagrada&#8221;, como ele mesmo a chama. Uma vis\u00e3o bastante inc\u00f4moda para certas l\u00f3gicas de domina\u00e7\u00e3o e empobrecimento da consci\u00eancia. Panikkar redescobre essas ideias cosmote\u00e2ndricas gra\u00e7as ao estudo dos textos v\u00e9dicos. No entanto, uma tradi\u00e7\u00e3o semelhante tamb\u00e9m est\u00e1 presente no Ocidente. Basta pensarmos nos conceitos plurimilenares de inspira\u00e7\u00e3o herm\u00e9tica antes de seu ressoar durante o Renascentismo em Pico della Mirandola com sua coroa de poss\u00edveis rela\u00e7\u00f5es entre o Homem, o Cosmos e o Esp\u00edrito.<\/p>\n<p><strong>Cristofania<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cA identidade de Cristo n\u00e3o \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o que fazemos dele&#8221;<\/em>. Essas palavras de Panikkar \u2014 formado em Teologia com uma tese sobre <em>Cristo mal interpretado pelo Hindu\u00edsmo<\/em> \u2014 v\u00eam de sua pr\u00f3pria viv\u00eancia e abrem um horizonte compar\u00e1vel aos dos textos do cristianismo dos primeiros s\u00e9culos de nossa era, felizmente redescobertos no deserto eg\u00edpcio em 1945 e conhecidos como Biblioteca de Nag Hammadi:<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o h\u00e1 palavra capaz de express\u00e1-la, n\u00e3o h\u00e1 olho capaz de v\u00ea-la, n\u00e3o h\u00e1 corpo capaz de segur\u00e1-la, por sua grandeza inacess\u00edvel, sua profundidade infinita, sua altura al\u00e9m de qualquer medida, sua largura incompreens\u00edvel\u2026\u201d<\/em> (<em>Trattado Tripartido<\/em>, 54, vv. 13 e sgg).\u00a0 Aqui ele fala, ou tenta n\u00e3o falar, da Fonte mais interior, do <em>Alfa e \u00d4mega<\/em>.<\/p>\n<p>Com a sua habitual perspic\u00e1cia profunda, Panikkar compreende, no seu discurso sobre Cristo, o aspecto hist\u00f3rico e tamb\u00e9m o c\u00f3smico: <em>\u201c&#8230; a plenitude da humanidade, a plenitude da divindade, a plenitude da corporeidade e da mat\u00e9ria.\u00a0 Cristo \u00e9 o s\u00edmbolo do que em uma certa linguagem chamamos de absoluto: s\u00edmbolo da realidade&#8221;<\/em> (R. Panikkar em <em>Ecosofia: La nuova saggezza<\/em>).\u00a0 A aplica\u00e7\u00e3o dessas reflex\u00f5es que o pr\u00f3prio Panikkar prop\u00f5e diretamente aos crist\u00e3os do terceiro mil\u00eanio \u00e9 a &#8220;Cristofania&#8221; (ainda em grego): o mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o e a presen\u00e7a despertada do divino no ser humano.<\/p>\n<p><strong><br \/>\nPermitir que o outro seja<\/strong><\/p>\n<p>O encontro &#8220;dial\u00f3gico&#8221; acontece em um n\u00edvel profundo e que desconhecemos: \u00e9 o n\u00edvel do \u201cn\u00e3o-saber\u201d que, por\u00e9m, ultrapassa qualquer saber que possamos colocar em a\u00e7\u00e3o.\u00a0 \u00c9 a estrat\u00e9gia do desarmamento cultural, como o chama Panikkar, um caminho que traz consigo a pr\u00f3pria ess\u00eancia da paz. O m\u00e9todo \u00e9 tr\u00edplice. As formas de determinada vis\u00e3o do mundo (por exemplo, a crist\u00e3), devem se tornar explicadas,\u00a0 sem que nada seja dado como certo; ent\u00e3o, devem ser colocadas no espa\u00e7o e no tempo, n\u00e3o para justificar os horrores e os erros do passado \u2014 que n\u00e3o devem ser esquecidos \u2014 mas para descobrir o que nos impede de dialogar, nossa prontid\u00e3o para receber e compartilhar.\u00a0 \u00c9 a atual vestimenta do medo que se apodera da comunidade ocidental, sufocando o desejo genu\u00edno de compreender o Outro, de compreender a Natureza, de se abrir ao autoconhecimento.<\/p>\n<p><em>\u201cA transforma\u00e7\u00e3o da qual falamos n\u00e3o \u00e9 um processo individual: devemos distinguir entre isolamento e solid\u00e3o. O isolamento sufoca, \u00e9 mortal, \u00e9 ego\u00edsta; a solid\u00e3o, ao contr\u00e1rio, oferece espa\u00e7o para a liberdade para que, ainda sendo eu mesmo, possa comunicar aos outros essa parte que lhes falta, que na verdade sou eu mesmo, e vice-versa&#8230; Tenho que procurar c\u00famplices, grupos, movimentos, sociabilidade, \u201cp\u00f3lis\u201d, igreja, pol\u00eamicas, grupos grandes ou pequenos&#8230; Esse \u00e9 o elemento purificador.\u00a0 Assim que algu\u00e9m se fecha em um grupo, a linguagem se degenera. Quando algu\u00e9m de fora a ouve \u00e9 imediatamente chamado de infiel. A raz\u00e3o para isso \u00e9 simples: sempre falamos uns com os outros&#8230; \u00e9 assim que se geram as culturas, que depois se tornam culturas de guerra, como conhecemos t\u00e3o bem&#8221;<\/em><br \/>\n( R. Panikkar em <em>Ecosofia: la Nuova Saggezza<\/em>).<\/p>\n","protected":false},"author":919,"featured_media":2502,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110108],"tags_english_":[],"class_list":["post-104612","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-spiritsoul-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/104612","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/919"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2502"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=104612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=104612"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=104612"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=104612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}