{"id":103947,"date":"2023-07-31T22:28:28","date_gmt":"2023-07-31T22:28:28","guid":{"rendered":"https:\/\/logon.media\/logon_article\/o-instante-sagrado\/"},"modified":"2024-02-19T18:10:07","modified_gmt":"2024-02-19T18:10:07","slug":"o-instante-sagrado","status":"publish","type":"logon_article","link":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/logon_article\/o-instante-sagrado\/","title":{"rendered":"O Instante Sagrado"},"content":{"rendered":"<p><strong>Voc\u00ea prefere ouvir este artigo? <\/strong><\/p>\n<!--[if lt IE 9]><script>document.createElement('audio');<\/script><![endif]-->\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-103947-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/logon.media\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/O-Instante-Sagrado.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/logon.media\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/O-Instante-Sagrado.mp3\">https:\/\/logon.media\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/O-Instante-Sagrado.mp3<\/a><\/audio>\n<p>Antigamente, os filmes eram feitos de fotogramas, pequenas fotos que corriam em c\u00edrculo no projetor, formando imagens que se moviam. Para edit\u00e1-los bastava utilizar um estilete sobre a tira de\u00a0celuloide para cortar cenas indesejadas, ou muito desejadas e censuradas \u2013 como em <em>Cine Paradiso<\/em>, de Giuseppe Tornatore, com trilha sonora do inesquec\u00edvel Ennio Morricone.<\/p>\n<p>Mas, e como editar o filme da Arte da Vida Real, com sua alquimia que nos impulsiona ao real autoconhecimento, ao anseio por liberta\u00e7\u00e3o, que faz nosso eu entregar-se ao transcendente, render-se a uma nova consci\u00eancia que nos conduz at\u00e9 a completa perfei\u00e7\u00e3o? Para editar \u00e9 preciso ter um bom crit\u00e9rio. Como avaliar cada cena vivida sem assistir ao filme completo?<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso lembrar que h\u00e1 o tempo e a eternidade. O mensur\u00e1vel e o imensur\u00e1vel. Em que instante eles se encontram?<\/p>\n<p>A cada dia, somos todos arrastados pela linha que criamos: uma linha sem volta, finita e mortal. A mem\u00f3ria grava o passado, a imagina\u00e7\u00e3o espreita o futuro. E n\u00f3s, no meio.<\/p>\n<p>De repente, regando o jardim, um brilho de \u00e1gua em uma p\u00e9tala abre um universo. <em>\u201cBorboletas e aves agitam voo: nuvem de flores<\/em>\u201d (Bash\u00f4) (1). A cintila\u00e7\u00e3o fica no ar, em \u00e1timos de segundo. Imposs\u00edvel de captar. O filme da vida vai correndo no projetor do tempo. Queremos parar o movimento, viver para sempre naquele fotograma. Imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Cansada, volto para minha vidinha habitual. O jardim ainda est\u00e1 l\u00e1, a gota de \u00e1gua j\u00e1 escorreu, a p\u00e9tala dobrou-se e caiu no banco sob o sol e meus pensamentos vagueiam entre lembran\u00e7as e planos. Sinto o sol na pele, animal que sou.<\/p>\n<p>Aquele instante passou t\u00e3o r\u00e1pido que, distra\u00edda, me esqueci.<\/p>\n<p>Livre da mem\u00f3ria e cansada para conseguir fazer planos concretos, me esvazio. Animal ao sol.<\/p>\n<p>O impens\u00e1vel me alcan\u00e7a novamente. Ele s\u00f3 chega quando, distra\u00edda, me esque\u00e7o. N\u00e3o h\u00e1 pensamento, nem sentimento, nem rea\u00e7\u00e3o alguma. Nesse instante, esquecida de mim e distra\u00edda do mundo, n\u00e3o sou. \u201c<em>N\u00e3o sou nada. Nunca serei nada. N\u00e3o posso querer ser nada. \u00c0 parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo<\/em>\u201d, diz \u00c1lvaro de Campos-Pessoa.<\/p>\n<p>O sagrado \u00e9 secreto, \u00e9 segredo. \u00c9 reservado e sigiloso. \u00c9 um mist\u00e9rio interior, um selo. \u00c9 o que separa o mundo divino do mundo humano. Mas tamb\u00e9m \u00e9 o que os une. Esse instante indiz\u00edvel, inef\u00e1vel, inenarr\u00e1vel, abre uma fresta quase impercept\u00edvel. Mas n\u00e3o h\u00e1 ideia alguma, imagem alguma, som algum. Somente a energia de outra natureza, de outro tempo sem tempo, de um lugar sem lugar, de outra luz.<\/p>\n<p>No sil\u00eancio templ\u00e1rio de meus olhos fechados, voltados para dentro, esvoa\u00e7am, ligeiros, sentir-pensares sem forma. N\u00e3o h\u00e1 nada e h\u00e1 tudo.<\/p>\n<p>Quando retorno para o aqui-agora do jardim, voltam as mem\u00f3rias. A voz de \u00c1lvaro de Campos ressoa, cobrando dele, o metaf\u00edsico, a realidade pr\u00e1tica: \u201c<em>Aproveitar o tempo! Mas o que \u00e9 o tempo, que eu o aproveite<\/em>?\u201d (2)<\/p>\n<p>O choque pragm\u00e1tico cai como um chumbo no ouro do sagrado. E me pergunto: o que \u00e9 despertar?<\/p>\n<p>Mais uma vez desperto no passado. Um poema que escrevi aos 18 anos j\u00e1 me mostrava que, na \u201crealidade\u201d (afinal, o que \u00e9 real?), a vida n\u00e3o passa de 5 minutos, no m\u00e1ximo.<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>5 MINUTOS<\/em><\/strong><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Quando a vida para,<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">quando a imagem n\u00e3o voa,<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">quando a ang\u00fastia do olhar<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">e a confian\u00e7a do sorriso<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">se estatizam,<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">quando o p\u00e1ssaro do fot\u00f3grafo da pra\u00e7a<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">abre as asas num voo pl\u00e1cido,<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">quando o gesto leve estaca,<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">quando a l\u00e1grima fica,<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">e o Ser palpita,<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">est\u00e1 pronto o retrato da Vida.<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p>O poema \u00e9 um pouco melanc\u00f3lico, mas verdadeiro. Com certeza n\u00e3o captou o sagrado que estava l\u00e1, invis\u00edvel e calado.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 dizia Fernando Pessoa (2): &#8220;<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">sentir \u00e9 estar distra\u00eddo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 que o instante sagrado \u00e9 um ponto luminoso entre o fluir do tempo e o eternamente est\u00e1tico.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 por isso que Paulo Leminski (3) escreveu tantos haikais, virou poeta multim\u00eddia e disse: \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">ainda ontem convidei um amigo para ficar em sil\u00eancio comigo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9. Precisamos silenciar juntos. Assim, talvez, entre a lida cotidiana e o impulso transcendente, \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Distra\u00eddos Venceremos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">!\u201d, como disse Leminski no t\u00edtulo de um de seus livros.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">REFER\u00caNCIAS<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(1) Frade, Gustavo e Carranza, Ricardo: in <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Doze poemas de Matsuo Bash\u00f4, Revista Arquitetura + Arte<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, vol. 1 ano 20, 2020, Ed. Arquitetura + Arte, Juiz de Fora-MG, Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(2) Pessoa, Fernando: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Obras completas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, volume II, Amazon kindle, acessado em 6.01.2023.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3) Leite,\u00a0 Elizabeth Rocha: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Leminski: o poeta da diferen\u00e7a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, Editora EDUSP, S\u00e3o Paulo-SP, 2012.<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":609,"featured_media":103893,"template":"","meta":{"_acf_changed":false},"tags":[],"category_":[110108],"tags_english_":[],"class_list":["post-103947","logon_article","type-logon_article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category_-spiritsoul-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article\/103947","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/logon_article"}],"about":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/logon_article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/609"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/103893"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=103947"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=103947"},{"taxonomy":"category_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/category_?post=103947"},{"taxonomy":"tags_english_","embeddable":true,"href":"https:\/\/logon.media\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags_english_?post=103947"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}